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| 1897 - Nobre Etíope - Fred Holland Day |
Fred Holland Day (1864-1933), editor norte-americano , foi o primeiro a pensar a fotografia como arte. Filho de família rica, tinha tempo e dinheiro para isso. Envolveu-se com temas polêmicos na vida e na arte. Em suas experimentações com temas religiosos usou a si mesmo como modelo (!) para a figura de Jesus Cristo e se fez fotografar preso a uma cruz.
Por outro lado, notório admirador das formas masculinas, costumava levar para seu estúdio, homens jovens para inspirar a lente de sua máquina fotográfica.
O jovem amigo que ele chamou de Rei Etíope transpira sensualidade no olhar velado, na mão preguiçosa que afasta o manto desnudando o torso sarado. Ah! meu Rei!!! É verdade que todos os biógrafos de Fred Holland Day, insistem em afirmar que a sua fruição ficava estrita ao terreno artístico (!).
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"Aldeia de negros" em um zoológico europeu.Autor desconhecido
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Na mesma época, final do século 19 e início do século 20, negros importados da África para a Europa e para os Estados Unidos eram exibidos da mesma forma que outros exóticos animais não humanos como chimpanzés, girafas, elefantes.Ota Benga foi um exemplo . Capturado no Congo em 1905, ficou em exposição na Europa e depois foi doado a um zoológico de Nova Iorque, onde ficava em exposição na jaula dos chimpanzés .
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Ota Benga .Autor desconhecido
A fotografia era ferramenta importante do "racismo cientifico" que procurava promover a desumanização dos indivíduos de pele preta
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No Brasil a moda chegou nos anos 1850. As fotos impressas em forma de cartão-postal viraram coqueluche, tornando-se a forma mais eficiente de divulgar fatos cotidianos, acontecimentos marcantes, profissões, paisagens.
Negros e negras, fotografados por razões pseudo-científicas, eram forçados a aparecer despidos, em poses humilhantes e que tentavam mostrar características físicas semelhantes às de animais não humanos.
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Tipos negros. Á esquerda, foto de A.Stahl, à direita foto de A Henschel
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Paradoxalmente, a nudez gratuita terminava por revelar formas perfeitas, invejáveis num universo onde a maioria da classe dominante branca só conseguia ostentar barrigão flácido e queixo múltiplo à lá D.João VI .
Em fotografia, o olhar dos modelos costuma refletir perfeitamente a forma como são olhados por quem está por detrás da lente.
Os negros escravizados ou libertos tornavam evidente a humilhação e o desconforto a que eram submetidos. O olhar predatório do fotógrafo ignorava sua privacidade, subtraia sua intimidade, e iniciava a construção de uma identidade negativa que até hoje sobrevive no imaginário coletivo dos brasileiros, nos estereótipos, nos preconceitos, no "racismo cordial" onipresente.
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| Da esquerda para a direita: 1900- autor desconhecido/ 2011-Marta Azevedo/ 2011- Marta Azevedo/ 1900-Virgilio Calegari |
A longevidade desta forma rapinante de "olhar os pretos" é demonstrada em recentes publicações. Um exemplo é o ensaio da fotógrafa carioca Marta Azevedo (1), publicado em 2012 com patrocínio da Secretaria da Cultura do RJ.
A pele preta é difícil de fotografar, complicada de equilibrar luz e sombra; é preciso conhecimento para conseguir um bom resultado. Marta Azevedo prova que tem esse conhecimento e o seu ensaio Black Faces apresenta uma técnica contemporânea de indiscutível qualidade.
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| 2011 - Algumas Black Faces de Marta Azevedo |
No entanto, dá para perceber que o conceito embutido nas poses dos modelos é o mesmo que guiava os fotógrafos do século 19 dedicados a registrar os exóticos pretos: são pessoas fazendo caretas, esgares, emoções forçadas, caras, bocas ...
Em entrevista à revista Raça Brasil a fotógrafa explica seu trabalho:
-" ... as pessoas posavam para mim, que já tinha uma concepção dessas fotos. Usei elementos da cultura e da religiosidade africana, como o candomblé, a umbanda, as miçangas, a palha e a argila.
-"... Gostei de ter feito todas elas . O que eu poderia dizer, nesse sentido, é que gosto muito de trabalhar com argila. Então, as fotografias que tiveram esse elemento foram especiais. A argila deixa as expressões faciais mais fortes, mais expressivas. Usei argila também no corpo de alguns fotografados, mas na maioria usei no rosto..."
-"... Os negros americanos são muito mais agressivos dos que os brasileiros. Eles têm mais atitudes. Os negros brasileiros são mais humildes dos que os negros americanos, que se impõem mais..."
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