Enviada por: Irene Santos, fotógrafa
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| Foto de familia feita em estúdio nos anos 1930. Acervo José Domingos A da Silva |
Após anos de pesquisas, a fotografia foi inventada e reconhecida pela primeira vez em 1826, na França. Era um processo complicado e o produto final uma imagem gravada sobre placa de vidro. As pesquisas continuaram e a nova técnica tornou-se uma coqueluche na Europa e nas Américas na segunda metade do século XIX principalmente quando as imagens puderam ser gravadas em papel
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| Fotografia obtida na década de 1880 mostra negros escravizados resgatados pela marinha inglesa perto do litoral de Zanzibar |
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Cartão de visita mostrando uma familia brasileira do século XIX com suas "negras de estimação" |
Os temas principais dos fotógrafos eram paisagens, registros de obras públicas e tipos humanos. Principalmente os exóticos como por exemplo os negros e os indígenas.
A moda
chegou até o Brasil, onde eram produzidas fotografias de negros, escravizados,
libertos ou nascidos livres para virarem cartões postais e cartões de visita.
Feitas sob
encomenda dos ricaços escravocratas os cartões postais eram uma forma de
alardear o poder econômico das familias.
Foto:Mulher com liteira e carregadores descalços - foto de autor desconhecido (¹)
As fotos de negros também
procuravam demonstrar ao resto do mundo o quanto era cordial a
escravidão brasileira e, após a abolição, a convivência de negros e brancos.
Para agradar a freguesia, os fotógrafos criavam em seus estúdios, cenas
dessa "amena convivência" ,das mães pretas com crianças
brincando montadas no seu lombo, ou alegres mucamas carregando produtos
para vender na rua , trabalhadores do campo em momentos de descanso...
Por mais
esforçados que fossem os fotógrafos no seu afã de passar a idéia da harmonia e
da passividade, não havia como disfarçar o desconforto e a humilhação dos
modelos negros, a escancarada falsidade das cenas.(²)
Mesmo após o término oficial do
tráfico, os negros continuaram a ser olhados como criaturas muito exóticas.
Na Europa suas fotografias eram usada para comprovar teses estapafúrdias da antropologia
social recém surgida misturando pseudo-ciência com espetáculo de circo.
Mulheres negras da
África do Sul, com suas nádegas proeminentes, eram exibidas como atrações no final
do século XIX. A mais famosa foi Saartje Baartman, a "Venus
Hotentote", exibida em Londres e París .
Foto: Louis Rousseau / Museo de Quai Branly
Até o
início do século 20 eram comuns exposições de tribos inteiras de africanos . Na
foto ao lado, mulheres da etnia Achanti, de Gana, em exibição no jardim
zoológico de L'Acclimation, París, em 1903.
Foto: Grupo de Pesquisas
Achac, Coleção Particular
Em Porto
Alegre, a fotografia chegou com o imigrante italiano Luiz Terragno em 1853 mais
dedicado às paisagens urbanas do que aos tipos populares. Nos anos seguintes
chegariam os Irmãos Ferrari , Virgilio Calegari, Colembush.
Herr
Colembush foi um negociante alemão bem sucedido que cultivava o hobby de
fotografar tipos populares que andavam nas ruas. São dele as fotos de velhos
negros libertos e abandonados à própria sorte.
O fotógrafo montou a cena na rua, utilizando balaios vazios e denunciando a exótica
miséria dos recém libertos. Seu olhar europeu não demonstra a minima
simpatia pelos modelos fotografados.
Quem já
foi retratista sabe que o olhar dos modelos costuma refletir o olhar do fotógrafo.
Então, se gentileza gera gentileza, o olhar solidário do fotógrafo é o que
costuma produzir a imagem que estampa a confiança do modelo. Mas não é isso que
se nota nesta foto dos libertos estivadores.Beatriz
Marocco (³), faz uma análise interessante desta conhecidíssima foto dos Irmãos
Ferrari:
"Há elementos que nos revelam o que herdaram da escravidão e a
pobreza que ganharam com a liberdade: as roupas em desalinho, os adereços improvisados
que os modelos levam na cabeça, que lembram os turbantes trazidos originalmente
das tribos africanas, a fisionomia invariavelmente sombria devido à nostalgia do
lugar de origem,o pedestal que remete ao tronco de madeira em que os escravos
eram supliciados e o olhar enviesado do negro sentado à nossa direita que,entre
todos do grupo, parece uma figura deslocada."
Virgilio
Calegari, outro italiano,era contemporâneo e mais que isso, concorrente dos
Irmãos Ferrari. Disputavam a
tapa a atenção da clientela de luxo, ávida pelos retratos de
estudio cuidadosamente produzidos. Damas da sociedade , políticos, gente rica
em geral, faziam fila para ter em seus álbuns de familias fotografias que se
tornavam também simbolo de status.
No que se
refere aos modelos negros, era o fotógrafo que ia atrás deles. Calegari, famoso
por sua idéias libertárias, lançava sobre os
exóticos ex-escravos
o mesmo olhar espantado de seus contemporâneos europeus. A foto ao lado, de
Germano Manoel da Motta, fazia parte de um ensaio fotográfico dedicado a tipos
populares da cidade. O nome do ensaio - Galeria
Grotesca - explicava bem o olhar de Calegari sobre os nativos
brasileiros.
A foto ao lado, de autor desconhecido da mesma forma mantém a idéia de exotismo
caricatural que só mudou quando nos anos 1930 os negros começaram a ir, por
iniciativa própria, aos estúdios fotográficos.
Saiba mais consultando:
(¹)No estudio do fotógrafo : representação e
auto-representação de negros livres, forros e escravos no Brasil da segunda
metade do seculo XIX - Sandra Sofia Machado Koutsoukos - Ed. Unicamp - São
Paulo - 2010
(³)O
cotidiano dos negros no exterior dos jornais de Porto Alegre,sinais de
fotojornalismo no século XIX - Beatriz Marocco, Universidade do Vale do Rio dos
Sinos