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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

BATE, ASSOPRA, BATE DE NOVO...


Vendedor de cestos. J.B.Debret
Jean Baptiste Debret , francês, pintor, professor, veio para o Brasil integrando a Missão Francesa de artistas importados por D.João VI em 1816.Romântico por formação, parece ter-se apaixonado pelo exotismo do povo habitante do Brasil.  
Disto resultou uma farta produção de registros do cotidiano dos negros que viviam principalmente no Rio de Janeiro. O artista  Debret chegou a elogiar as figuras de negros que desenhava pelo porte imperecível das esculturas gregas e egipcias . Mas contraditório, não se furtou a declarar achar que
 "negro é indolente, vegeta onde se encontra, compraz-se na sua nulidade e faz da preguiça sua ambição. [...]"
Em sua tese de mestrado(1) a professora Vanessa R Lambert de Souza explica: 

[...] a construção de um imaginário depreciativo concernente aos negros é bem antiga, não ocorrendo somente na iconografia. Os artistas trabalhavam uma determinada linguagem simbólica. Muitos desses  símbolos  estão  ligados  à  tradição, sendo  necessário  um  grande esforço para mudar aquilo que estaria rigidamente estabelecido.

Mulher com frutas. Acervo Museu Porto Alegre
Muito incensado por aqui, nos anos 1920/1930 era o cronista Achyles Porto Alegre. Escrevia sobre os costumes e os habitantes da cidade.  Em seu livro Prosa Esparsa   de 1925 pode-se ler sobre  a preta Camilla:  
"Ali, no degrao de cima, da escada  de pedra do quartel do 7º de Infantaria, postava-se a preta Camilla com seu taboleiro com pinhões, pipocas amendoim torrado e 'farinha de cachorro'.  [...] Antes das 8 horas da manhã, quem passasse por esse ponto a veria, attendendo a um ou outro collegial, na sua faina de todos os dias. E não eram só os meninos que iam para as escolas, como os soldados e toda a casta de gente que transitava pela escada. [...] Uma tarde a Camilla estava sentada no alto da escada às voltas com seus amendoins quando descia um cortejo fúnebre de uma moça que era um encanto e subia em direção à Matriz uma noiva para santificar na egreja o seu enlace. A Camilla pode-se afirmar uma preta boçal (?), disse sacudindo a cabeça: - Qual das duas será a mais feliz, a que vae para o cemitério ou a outra que segue em caminho da egreja?!... Quanta philosophia nessa phrase que escapou da boca dessa creatura ignorante!...
Como um século antes fizera Debret, o cronista porto alegrense na frase final, desqualifica qualquer intenção elogiosa que pudesse ter tido em relação à  preta Camilla. 
No século 19 os negros eram submetidos ao trabalho forçado e ao chicote.Quando eram soltos do tronco e para que pudessem voltar logo ao trabalho, tinham as feridas "tratadas" com sal grosso, o que as fazia arder por mais tempo . Hoje, século 21, quando não dá para usar o chicote e o sal, usam-se palavras para cultivar feridas nas "almas pretas".

Médica cubana recém chegada ao país da demagogia racial
Não é de admirar que a suposta jornalista Micheline Borges,do Rio Grande do Norte sinta-se à vontade para divulgar no Facebook sua opinião sobre a aparência dos participantes do programa "Mais Médicos": 
"Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas tem uma Cara de empregada doméstica. Será que São médicas Mesmo? Afe que terrível. Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõe a partir da aparência...Coitada da nossa população. Será que eles entendem de dengue? Febre amarela? Deus proteja O nosso povo! (sic)"
Aqui, como no restante do país,o noticiário foi pródigo em divulgar as chibatadas na auto estima dos negros.

Qualquer semelhança...
- Já no início do ano, o Estado por meio do seu ministério da Cultura(MinC)  lançava polêmicos editais "destinados a tirar do limbo tantos projetos culturais produzidos por artistas negros e pardos".
Surpreendentemente mal redigidos, os editais levaram a uma impugnação anunciada, sob a alegação de ilegalidade da auto-declaração de raça (!?!) exigida dos proponentes de projetos.
A polêmica estendeu-se por meses a fio e, incentivada pela própria fundação que patrocinava os editais, aconteceu uma mobilização de artistas e produtores negros contra a medida "racista" do juiz maranhense. (3)
No segundo semestre, como costuma acontecer, a pizza ficou pronta: Funarte, MinC, Seppir, Fundação Palmares anunciaram  os projetos escolhidos para abiscoitar as valiosas premiações.
Curiosamente, entre os escolhidos, todos sócios de carteirinha do partido político que está mandando, havia  vários caras pálidas que, ou não apresentaram a auto-declaração ou, se apresentaram, mentiram
.
O deboche patrocinado pelo ministério era tanto que, aqui em Porto Alegre, uma das agraciadas com 200 mil reais, Michele Zgiet (...QUEM ???), se deu o luxo de alardear sua arrogância em pleno Brique da Redenção.Tipo assim: quem pode, pode!


No encerramento da Semana da Consciência Negra, 20 de novembro, foi realizada a 6ª Marcha Zumbi dos Palmares. Mereceu matéria no jornal mais lido da cidade, em destaque na editoria de Polícia (!!!). A "piada" não foi bem recebida na rede social e o jornal se desculpou pelo indesculpável:
Correção: A notícia sobre a Marcha Zumbi dos Palmares, produzida pela editoria de Geral, foi classificada erroneamente como um conteúdo de "Polícia" até a tarde desta quarta-feira. Embora tenhamos ajustado para ficar disponível exclusivamente na editoria de "Geral" e em suas capas e listas, a matéria pode aparecer com o topo de "Polícia" se o leitor abrir a URL disponibilizada antes da nossa correção (ZH 20.11.2012)
Barbaridade!! ser negro e/ou negra em Porto Alegre dá uma canseira!!!
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1) O vestuário do negro na fotografia e na pintura: Brasil, 1850-1890 - Vanessa Raquel Lambert de Souza -   UEP/SP - 2007
2)Prosa esparsa - Achyles Porto Alegre - Livraria do Globo - 1925
3) Para saber mais sobre os editais e a polêmica, acesse o Blog do Spirito Santo 
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terça-feira, 29 de outubro de 2013

POR FALAR EM CORTINA DE FUMAÇA ...

Imagens de "Refutation of Good Hair" de Nakeya Brown (1)


A fotógrafa norte-americana Nakeya Brown está causando sensação com seu trabalho  recentemente apresentado em Chicago/USA: “The Refutation of Good Hair" em tradução livre "Contestando o Cabelo Bom".  Irônica, a fotógrafa  mostra perucas Kanekalon ( o simbolo do cabelo bom) sendo engolidas pelas modelos (!!) brincando com a metáfora  da boa comida. Segundo ela, o resultado esperado é fazer os espectadores pensarem no quanto é ridículo classificar os cabelos das mulheres negras em bons e ruins. A idéia  interessante é apresentada de maneira direta e contundente. Por aí se vê que  lá, na metrópole, tanto como aqui, os cabelos dos negros e das negras ainda não são questão superada. Quem diria?

No que nos diz respeito, a polêmica do momento tem a ver com a novela das oito da Globo. Bem na hora do jantar, quando as famílias brasileiras ficam com um olho no prato e outro no telão da sala, vai ao ar Amor à Vida. O título meiguinho esconde uma trama baseada em todas as mazelas morais da humanidade: mentira, orgulho desvairado, discriminação, enganação, maldade explícita, desrespeito com as crianças, desprezo pelas mulheres enfim, todas as formas que o desamor pode criar.
Como costuma acontecer, tudo o que aparece na ficção viciada vira notícia de primeira página dos principais jornais do país. Assim foi quando o autor da novela pediu (!!!) para tosar o penteado black power de um  personagem (negro) visando tornar sua imagem mais palatável aos espectadores de sua obra. Não fica bem definido para quem ele pediu, já que é o autor do enredo.

Mas, foi aparecer no facebook e no twiter e a questão se tornou de importância nacional. De todo lado levantaram-se vozes contra o presumido racismo e preconceito do autor do folhetim. Outras vozes vieram defendê-lo. Outras defendendo o cabelo do guri. Pelo corta não corta se sentiram ofendidos brancos de todas as cores e negros de todos os tons, sem esquecer as celebridades-relâmpago sempre de olho nos espacinhos que a midia lhes oferece.
Tanto ti-ti-ti por nada sempre faz lembrar de cortinas de fumaça.
Porque não é o penteado ou a cabeça raspada que vão garantir salvo-conduto para negros e negras se movimentarem em paz dentro do ambiente dominado pelos caras-pálidas. Se fosse assim fácil, não passaríamos por tantas humilhações diariamente.São tantas que passam a fazer parte do nosso cotidiano, acostumamos e nem sempre nos animamos a revidar, reclamar como fizeram meu amigo Kdoo Guerreiro e sua Anna Maack,há duas semanas, ao serem agredidos pelo racismo e preconceito tão naturais em Porto Alegre . 
 
"Foi assim que me senti há uma hora atrás" - Kdoo Guerreiro (2)

 Kadoo e Anna estão certos, não dá para deixar passar em branco (!!). Mais do que o "jus esperneandis" (3) existe o dever de não baixar a cabeça. 
Não dá para esquecer que vivemos no país da demagogia racial (4) e que a discriminação e o desrespeito vêm de cima, como chuva ácida. A turma que manda não economiza nas atitudes para engambelar "os morenos", cooptando suas cabeças pensantes e ignorando solenemente a dignidade da maioria.
Isso vem desde o século 19, com leis como a do Ventre Livre, a dos Sexagenários e, principalmente, a lei Áurea. Na atualidade , a prática da "enrolation"  se manifesta incessantemente: em leis que não são regulamentadas (vide a "lei das domésticas") ou que são esvaziadas pelos próprios legisladores ( vide o Estatudo da Igualdade Racial).

A turma que manda tem a faca e o queijo. Precisamos ficar alertas sabendo que mesmo quando prometem compartilhar o alimento com a negrada, só as cascas duras vão sobrar. E ainda assim, só para os muy amigos (vide os recentes editais do MinC/Funarte/Seppir para premiar artistas e produtores negros)(5)

Vamos lembrar: já que estamos em véspera de ano eleitoral, está na hora de botar a boca no trombone!

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1)Entrevista com Nakeya Brown
2)Kdoo Guerreiro : Foi assim que me senti há uma hora atrás
3) "Jus sperniandis” é uma falsa expressão latina criada por estudantes de Direito no século passado.  Significa o direito de espernear, direito de reclamar, direito de se revoltar.
4) Demagogia é um termo de origem grega que significa "arte ou poder de conduzir o povo". É uma forma de atuação política na qual existe um claro interesse em manipular ou agradar a massa popular, incluindo promessas que muito provavelmente não serão realizadas, visando apenas a conquista do poder político.( www.significados.com.br)
5)Funarte, arte negra e a mão da limpeza

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quinta-feira, 20 de junho de 2013

(NÃO) ME ENGANA QUE EU (NÃO) GOSTO

  
Intervenção sobre arte de Kdoo Guerreiro para o dia 21


No  dia  20 de novembro de 2012, o Ministério da Cultura publicou editais destinados a produtores e artistas negros. A ministra Marta Suplicy, com estes editais, procurou tirar o MinC de cima do muro, adotando  uma atitude pró ativa em favor de 52% da população do país.

A ministra reconheceu que, se o governo não subsidiar os projetos culturais de negros e sobre negros, ninguém mais vai fazê-lo já que a iniciativa privada ignora-os solenemente . O ineditismo dos editais  causou  frisson e estranheza  desde  o dia do seu lançamento solene no Museu Afro Brasil de Emanoel Araújo.
Os artistas produtores culturais negros ficaram eufóricos como se suas demandas seculares estivessem começando a ser atendidas. 
Mas não é bem assim.
Calcada no onipresente racismo cordial a classe dominante do Brasil costuma aplicar filtros severos quando se trata de juntar as palavras negros + cultura.




Basta lembrar a gafe monumental que foi cometida pela Caixa Econômica Federal em 2011, em propaganda que  ao "homenagear" Machado de Assis trandformou-o num verdadeiro wasp caboclo (1)


Claro que não vai faltar uma alma quatrocentona, estranhando tanto tititi, que declare ao olhar a fotografia do mulato Machado: Mas ele nem negro era! (porque em sendo bom, negro não pode ser, não é não?)

As formas de elogiar ou homenagear os pretos e pretas costumam indicar onde as pessoas guardam seus preconceitos.
Exemplificando: na noite do dia 13 de maio último, na  Bandnews,  Salomão Schvartzman , jornalista conceituado,  conselheiro do MASP, bacharel em Ciências Políticas e Sociais  resolveu fazer uma homenagem à abolição e encerrou   seu programa diário declamando, pasmem, Essa Nêgra Fulô de Jorge de Lima (2).
E como era uma homenagem e ele (Salomão) é um bom declamador, enfeitava cada palavra com entonações de malícia e luxúria.
Só faltou entoar Lamartine Babo: 
O teu cabelo não nega, mulata / Porque és mulata na cor / Mas como a cor não pega, mulata / Mulata eu quero o teu amor / 


Os equívocos se sucedem porque os projetos culturais referentes aos negros brasileiros são desenvolvidos  por "gente de fora do cercado." Os padrões estéticos são os de um mundo falsamente europeizado, branco, com um olhar colonizado e um espírito de rapinante, que se apropria e desvirtua traços culturais que herdamos dos nossos ancestrais africanos. São infindáveis as ferramentas de desconstrução cultural que a sociedade dominante tem à sua disposição,  subsidiadas pelo dinheiro público.
Por isso, faz sentido a explicação da ministra ao divulgar os editais de 20 de novembro:
"É para negros serem prestigiados na criação, e não apenas na temática. É para premiar o criador negro, seja como ator, seja como diretor ou como dançarino. Não é racismo."   
Mas, neste país de inconsequências, logo veio a bomba : um juiz do Maranhão conseguiu suspender o curso dos editais, parar tudo e instalar a confusão. Ao saber da novidade, a ministra Marta Suplicy se mostrou chocada e disparou a frase mágica que a colocou no centro das atenções: Isso é Racismo!                                                                   
Ah, ministra, com todo o respeito, a causa da suspensão dos editais não foi o só o racismo do juiz mas, principalmente, a incompetência dos burocratas de plantão do seu ministério que elaboraram os editais com erros jurídicos, constitucionais e até gramaticais.
"O deslize jurídico constitucional dos setores do MinC que elaboraram os editais de cultura foi evidente. Óbvio que, nos termos em que foram implementados, a possibilidade de haver questionamento legal seria previsível.(3)"

Perguntas que não querem  calar :
Dá para acreditar em  distração dos redatores de editais do Minc, cochilo inocente ? Será mesmo que não conseguiram prever a impugnação? Foi só incompetência? Ou tem mais alguma coisa envolvida? 


E se os editais forem mesmo suspensos, para onde será direcionada a verba de 10 milhões de reais que o Minc já tinha separado para a cultura negra?


2014 será ano de eleições e 2013 é  ano de promessas.

Hum... há um cheiro de cenoura no ar...





Aqui em Porto Alegre, para sexta feira dia 21 de junho, está previsto um ato público pela liberação dos editais de cultura negra do MinCSe o sub-texto das grandes manifestações cívicas dos últimos dias tem sido "não é só pelos 20 centavos" nesta nossa poderia ser: 
"DONA MARTA, NINGUÉM  É BOBO AQUI!"
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1) WASP é o acrônimo que em inglês significa  White, Anglo-Saxon and Protestant (Branco, Anglo-Saxão e Protestante).Com frequência usada em sentido pejorativo, presta-se a designar um grupo relativamente homogêneo de indivíduos estadunidenses de religião protestante e ascendência britânica que supostamente detêm enorme poder econômico, político e social. (Wikipedia)
2) - Essa Nêgra Fulô  de Jorge de Lima e a Outra Nêga de Oliveira Silveira

3) - Preto por Branco até pode, Preto por Preto, não -Blog Spirito Santo
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Não dá para não participar


Enviada por: Irene Santos, fotógrafa

No dia da Consciência Negra, 20 de novembro do ano passado, a ministra Marta Suplicy,  da Cultura, numa atitude iluminada,  lançou editais direcionados a criadores e produtores culturais negros. Demorou ,mas parece que agora a elite brasileira começa a perceber que a melhor história dos negros é  a que é contada pelos próprios. Como a melhor demonstração de arte negra é  a apresentada pelos negros. E por aí vai...

Claro que apareceu a turma “do contra”, reclamando da suposta discriminação, aconselhando os negros a não aceitarem a “humilhação” de participar de um edital racista (?). Mais claro, ainda, é que esse tipo de opinião vem de gente que nunca sentiu no couro o significado do tripé racismo, preconceito, discriminação,  onipresente na democracia cordial brasileira.
Marta Suplicy se explicou: "É para negros serem prestigiados na criação, e não apenas na temática. É para premiar o criador negro, seja como ator, seja como diretor ou como dançarino. Não é racismo."
Emanoel Araújo, criador do Museu Afro-Brasil/SP encerrou a falsa polêmica: "A iniciativa é uma posição política muito bem-vinda. Do jeito que está [a cultura], o Brasil parece a Dinamarca. Na TV, o negro sempre aparece é na posição de empregado ou de chacota. É de um lado o lado branco chiquérrimo e o do outro o escravo ou ex-escravo."
Voltando  à porta entreaberta, aí vai o link para acessar os editais:
Aqui na cidade, reforçando a ação afirmativa do ministério, está sendo organizado um cadastro de produtores e criadores negros.
 A representante do Minc/RS, Margarete Moraes ( margarete.moraes@cultura.gov.br), generosamente disponibilizou seu endereço eletrônico para que lhe sejam enviados os currículos dos criadores e  produtores negros .
Não dá para não participar!