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segunda-feira, 29 de julho de 2013

A IRA SANTA DO SEU PEDRO CUNHA

 Pedro Cunha. 
Seu Pedro Cunha, perto dos oitenta anos, tem a memória afiada como todo griot que se preze.Lembra não só dos fatos como das razões que deram origem aos fatos e das consequencias geradas pelos fatos. Tudo coisa de antigamente.
Por exemplo, ele conta que seu pai, Isaque,no início do século XX integrava uma confraria que cuidava da colocação dos negros no mercado de trabalho. Alfaiates, costureiras, marceneiros, cozinheiras,carpinteiros. Seu Pedro salienta que toda vez que os pretos se associavam pensavam no bem comum, em se auxiliarem mutuamente.


"A (praça da) Harmonia era onde os negros se reuniam, lá embaixo, lá no cais do porto". Lá, o grupo de seu pai Isaque, ficava esperando  a chegada dos novos trabalhadores vindos do interior do estado.
Praça da Harmonia vista do Guaiba, Irmãos Ferrari
Fazia parte do modo de ser dos negros o auxilio mútuo. Não só nas associações oficiais como no dia a dia, na cotidiana vida do Areal da Baronesa  ou da Colônia Africana.

O sentimento de fraternidade se aguçava em certas ocasiões.  Seu Pedro conta que em 1941, no mês de maio choveu 40 dias sem parar. Quando parou a chuva, começou o vento. O Riacho transbordou e a água entrava nas casas próximas "para mais de metro" janela adentro. Sua família, pais e três crianças, teve de sair de casa. Foram abrigados na Colônia Africana, na casa de "irmãos pretos", onde ficaram por mais de mês.

A professora Petronilha Gonçalves e Silva também fala das suas lembranças da Colônia Africana (1) já nos anos 1950 :
"Compartilhar progressos e benefícios era quase uma norma. Assim, quando o vizinho Joaquim, funcionário do Tesouro do Estado, comprou o primeiro rádio das imediações de sua casa, muitos compartilharam. Ao final do dia, ao chegar em casa, punha o rádio na janela da frente em alto volume e a vizinhança se aproximava para ouvir notícias, músicas, histórias seriadas.                   Os adultos se ocupavam de todas as crianças da vizinhança, chamando a atenção, orientando, acarinhando. O Seu Miguel Ribeiro, na Páscoa, escondia moedas pelo pátio e jardim, depois chamava a criançada, a começar por suas filhas, sentava-se na cadeira de balanço e ficava observando e se divertindo com a correria atrás das moedas. Aplaudia, a cada moeda encontrada, e incentivava para que continuassem até encontrar a última. Todos encontravam alguma moeda."
Mas o tempo fez as coisas mudarem. A cidade cresceu muito. Segundo o censo  IBGE/2010 Porto Alegre tem 1,5 milhão de habitantes dos quais 17% não brancos. Considerando que "em não sendo branco, negro é", seríamos 250 mil pretos habitando  o território da "leal e valerosa".(2) Considerando ainda que a auto-declaração é o critério que define quem é e quem não é, dá para concluir que o número é bem maior.

Muito mais gente, inúmeros elementos desviando a atenção...é natural, assim, que o velho sentimento de coesão do povo negro tenha enfraquecido. Seu Pedro Cunha protesta revoltado:
"A minha ira é que essas coisas todas, essas coisas negras foram sendo destruídas pelos próprios negros". 
28.7.2013, no Brique da Redenção

Talvez não destruídas, Seu Pedro, mas esquecidas pela falta de prática. Pela falta de tempo de ir a uma reunião, pela falta de informação, apesar de vivermos na época da comunicação virtual exacerbada. Pela falta de conhecimento da própria história. Tratado como estrangeiro em sua própria pátria, o povo preto, resignado em grande parte, ainda aceita a invisibilidade que a sociedade dominante lhe atribui...A ira de Seu Pedro Cunha tem razão de ser.




Mas fique tranquilo, Seu Pedro, parece que finalmente as coisas começam a mudar. Não fosse isso, nesse domingo ensolarado de 28 de julho, não se teria visto o que se viu.
Marguerite Silva Santos - fotos Irene Santos

Em pleno Brique da Redenção, reduto dos descolados de Porto Alegre, irrompeu o protesto em forma de música e cantoria. Liderado pelo Coletivo Negro de Artistas e Produtores do RS,  pelo grupo Caixa Preta, pela cantora lírica Marguerite Silva Santos, pelo ator Kdoo Guerreiro, pelo diretor de teatro Jessé Oliveira, pelo ator e compositor Alvaro Rosa Costa, um grupo - nem tão pequeno como se poderia temer mas nem tão grande como seria de se querer - protagonizou um ato pela valorização das raízes da nossa cultura de negros. Quem estava passando parou e muitas caras amarradas se abriram em sorriso; houve quem aderiu cantando no lugar,houve quem além de cantar, dançou pela justa causa. O refrão e a percussão tomaram conta do Brique.
Foi um ato público provando que pode-se protestar com arte. Outros virão. Nossa voz tem poder é o refrão.
Só que tem de vir todo mundo... e cantar junto.
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1) Texto de apresentação do livro Colonos e Quilombolas-memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre - 2010 - Irene Santos, Cidinha da Silva,Vera Daisy Barcelos, Dorvalina Fialho, Zoravia Bettiol.

2) A frase "Leal e Valerosa Cidade de Porto Alegre" é o título que D. Pedro II do Brasil, em 1841, outorgou a Porto Alegre pela sua constância e fidelidade ao trono brasileiro durante a Revolução Farroupilha.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Não dá para não participar (2)

 

Enviada por: Silvia Abreu, jornalista e produtora cultural

O Ministério da Cultura está procurando realizar ações afirmativas para preservar e tornar visível a cultura afro brasileira. Cinco editais estão abertos voltados para criadores e produtores negros. Sem dúvida, é uma grande oportunidade, para a qual não podemos nos furtar em participar. Afinal, se somos bons em exigir oportunidades iguais, devemos, neste momento, demonstrar nossa capacidade de organização e mobilização.
Há poucas semanas, a Representação Regional Sul fez um chamamento à comunidade negra para que esta se cadastre junto ao MINC. É importante que seja dado nome e endereço a quem promove a cultura negra neste País. Os interessados em fazer parte deste cadastro devem informar o nome da entidade, área de atuação, local/território de atuação/endereço, nome completo do representante legal, e-mail e telefone para contato. Segundo, a Representação Regional, o mapeamento está sendo feito em todo o País visando abranger o maior número de interessados e contribuir com uma maior visibilidade da arte e da cultura negra.
As informações podem ser enviadas para
comunicacaosul@cultura.gov.br
Porém, o mais importante é que a comunidade negra participe dos editais que estão abertos. Quanto mais projetos e mais organizações participarem dos editais que estão sendo oferecidos pela Fundação Nacional de Artes, em parceria com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República – SEPPIR, mais força demonstrarão e mais verbas e editais garantiremos para os próximos anos. Se formos poucos e inexpressivos, perderemos o pouco que já conseguimos. Depois, não caberão reclamações e queixas, de que não somos vistos ou contemplados. Por isso, conclamo a todos a organizarem suas ideais e as transformarem em projetos. Os editais são autoexplicativos e com a ajuda de um amigo ou um profissional mais experiente é possível preencher o formulário e entrar na disputa.
 Quem quiser saber mais sobre o assunto, pode procurar o plantão criado para informar sobre os Editais, no escritório da Representação, Rua André Puente, 441 sala 604.   Os   Editais abertos para produtores e criadores negros contemplam as áreas do livro e leitura, audiovisual e artes. As inscrições são gratuitas e podem participar todos os interessados.
Portanto, mãos à obra!
Para conhecer os editais e prêmios em aberto, acesse:
Prêmio Memórias Brasileiras vai selecionar iniciativas dos movimentos sociais - Acesse o edital e anexos.
Editais da Funarte: Premio Grande Otelo- http://www.funarte.gov.br/edital/premio-funarte-grande-otelo/
Fundação Biblioteca Nacional 2012 - http://www.bn.br/portal/?nu_pagina=144
Fundação Palmares - Editais abertos - http://www.palmares.gov.br/2012/10/editais-abertos/
Prêmio Culturas Populares 2012 - Abertura 05/01/2013 - http://www.cultura.gov.br/culturaviva/premio-culturas-populares-2012/
1ª edição do Prêmio Ibram Memória do Esporte Olímpico - http://www.museus.gov.br/premios-e-editais/programa-de-fomento-2012/
 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Adeus, Magliani. Vai nos fazer falta tua lucidez.



Publicado por Griot Digital     
"Na questão sobre a ideologia da negritude, existe uma confusão grave: o movimento não nega a cor branca nem qualquer outra, apenas afirma os direitos da raça negra ainda esquecidos, mesmo num país mestiço, e reivindica a igualdade para todas as raças. Meu trabalho expressa ou pretende expressar a mim como um todo. Logo, estão incluídas nele todas as minhas descobertas, dúvidas e preocupações – também o feminismo, a ecologia e a negritude. Estão, incluídos com todas as coisas que me formaram até aqui, mas não estou interessada em fazer panfleto de nada, não sou militante de nenhum movimento específico. Pratico minhas idéias, não gosto de proselitismo. Me interessa sempre a essência do humano, que não é divisível em credos, raças e ideologias. Ser uma pessoa de cor negra não interfere em nada na minha pintura e não entendo a sempre presente preocupação das pessoas com este aspecto. É minha vez de perguntar: por que parece tão excepcional que um negro pinte? Por que a condição racial dos artistas de cor branca nunca é mencionada? Por que sempre me perguntam como é ser negra e ser artista? Ora, é igual ao ser de qualquer outra cor. As tintas custam o mesmo preço, os moldureiros fazem os mesmos descontos e os pincéis acabam rápido do mesmo jeito para todo mundo. A diferença quem faz é a mídia. É “normal” ser branco, e, portanto, é natural que o branco faça tudo, mas, quando se trata de um negro, age como se fosse algo fantástico, um fenômeno — o macaco que pinta! Não gosto disto..." (trecho de entrevista de Maria Lidia Magliani no boletim informativo do MARGS, nº 32 de janeiro de 1987)