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quinta-feira, 24 de julho de 2014

ADEUS A UM GRIOT

Irene Santos, fotógrafa
Pedro Cunha - foto Irene Santos

Hoje ficamos menores.Com menos memória.
Seu Pedro Cunha se foi,
 levando embora o seu discurso afiado que nos instigava
  a lembrar de nossas origens e do nosso orgulho ancestral.


Seu Pedro  Cunha não se incomodava em afirmar sua ira santa contra a
nossa falta de memória. Contra a falta de solidariedade entre os iguais.
Seu Pedro Cunha não se deixava enganar.

Já nos anos 60, era veemente no protesto  

contra toda a  teoria que tentasse colocar os negros  no seu lugar.

Com a autoridade de  Griot, declarava destemido:

" Antes, as mulheres negras eram cozinheiras e ensinavam, hoje são as madames que ensinam a cozinhar"

 "O negro acredita em tudo o que dizem, até que ele é racista." 

" Não existe classe dominante, existem seres submissos que se deixam dominar"


Falou e disse! 
Como só sabem fazer os Griots.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

A IRA SANTA DO SEU PEDRO CUNHA

 Pedro Cunha. 
Seu Pedro Cunha, perto dos oitenta anos, tem a memória afiada como todo griot que se preze.Lembra não só dos fatos como das razões que deram origem aos fatos e das consequencias geradas pelos fatos. Tudo coisa de antigamente.
Por exemplo, ele conta que seu pai, Isaque,no início do século XX integrava uma confraria que cuidava da colocação dos negros no mercado de trabalho. Alfaiates, costureiras, marceneiros, cozinheiras,carpinteiros. Seu Pedro salienta que toda vez que os pretos se associavam pensavam no bem comum, em se auxiliarem mutuamente.


"A (praça da) Harmonia era onde os negros se reuniam, lá embaixo, lá no cais do porto". Lá, o grupo de seu pai Isaque, ficava esperando  a chegada dos novos trabalhadores vindos do interior do estado.
Praça da Harmonia vista do Guaiba, Irmãos Ferrari
Fazia parte do modo de ser dos negros o auxilio mútuo. Não só nas associações oficiais como no dia a dia, na cotidiana vida do Areal da Baronesa  ou da Colônia Africana.

O sentimento de fraternidade se aguçava em certas ocasiões.  Seu Pedro conta que em 1941, no mês de maio choveu 40 dias sem parar. Quando parou a chuva, começou o vento. O Riacho transbordou e a água entrava nas casas próximas "para mais de metro" janela adentro. Sua família, pais e três crianças, teve de sair de casa. Foram abrigados na Colônia Africana, na casa de "irmãos pretos", onde ficaram por mais de mês.

A professora Petronilha Gonçalves e Silva também fala das suas lembranças da Colônia Africana (1) já nos anos 1950 :
"Compartilhar progressos e benefícios era quase uma norma. Assim, quando o vizinho Joaquim, funcionário do Tesouro do Estado, comprou o primeiro rádio das imediações de sua casa, muitos compartilharam. Ao final do dia, ao chegar em casa, punha o rádio na janela da frente em alto volume e a vizinhança se aproximava para ouvir notícias, músicas, histórias seriadas.                   Os adultos se ocupavam de todas as crianças da vizinhança, chamando a atenção, orientando, acarinhando. O Seu Miguel Ribeiro, na Páscoa, escondia moedas pelo pátio e jardim, depois chamava a criançada, a começar por suas filhas, sentava-se na cadeira de balanço e ficava observando e se divertindo com a correria atrás das moedas. Aplaudia, a cada moeda encontrada, e incentivava para que continuassem até encontrar a última. Todos encontravam alguma moeda."
Mas o tempo fez as coisas mudarem. A cidade cresceu muito. Segundo o censo  IBGE/2010 Porto Alegre tem 1,5 milhão de habitantes dos quais 17% não brancos. Considerando que "em não sendo branco, negro é", seríamos 250 mil pretos habitando  o território da "leal e valerosa".(2) Considerando ainda que a auto-declaração é o critério que define quem é e quem não é, dá para concluir que o número é bem maior.

Muito mais gente, inúmeros elementos desviando a atenção...é natural, assim, que o velho sentimento de coesão do povo negro tenha enfraquecido. Seu Pedro Cunha protesta revoltado:
"A minha ira é que essas coisas todas, essas coisas negras foram sendo destruídas pelos próprios negros". 
28.7.2013, no Brique da Redenção

Talvez não destruídas, Seu Pedro, mas esquecidas pela falta de prática. Pela falta de tempo de ir a uma reunião, pela falta de informação, apesar de vivermos na época da comunicação virtual exacerbada. Pela falta de conhecimento da própria história. Tratado como estrangeiro em sua própria pátria, o povo preto, resignado em grande parte, ainda aceita a invisibilidade que a sociedade dominante lhe atribui...A ira de Seu Pedro Cunha tem razão de ser.




Mas fique tranquilo, Seu Pedro, parece que finalmente as coisas começam a mudar. Não fosse isso, nesse domingo ensolarado de 28 de julho, não se teria visto o que se viu.
Marguerite Silva Santos - fotos Irene Santos

Em pleno Brique da Redenção, reduto dos descolados de Porto Alegre, irrompeu o protesto em forma de música e cantoria. Liderado pelo Coletivo Negro de Artistas e Produtores do RS,  pelo grupo Caixa Preta, pela cantora lírica Marguerite Silva Santos, pelo ator Kdoo Guerreiro, pelo diretor de teatro Jessé Oliveira, pelo ator e compositor Alvaro Rosa Costa, um grupo - nem tão pequeno como se poderia temer mas nem tão grande como seria de se querer - protagonizou um ato pela valorização das raízes da nossa cultura de negros. Quem estava passando parou e muitas caras amarradas se abriram em sorriso; houve quem aderiu cantando no lugar,houve quem além de cantar, dançou pela justa causa. O refrão e a percussão tomaram conta do Brique.
Foi um ato público provando que pode-se protestar com arte. Outros virão. Nossa voz tem poder é o refrão.
Só que tem de vir todo mundo... e cantar junto.
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1) Texto de apresentação do livro Colonos e Quilombolas-memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre - 2010 - Irene Santos, Cidinha da Silva,Vera Daisy Barcelos, Dorvalina Fialho, Zoravia Bettiol.

2) A frase "Leal e Valerosa Cidade de Porto Alegre" é o título que D. Pedro II do Brasil, em 1841, outorgou a Porto Alegre pela sua constância e fidelidade ao trono brasileiro durante a Revolução Farroupilha.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

ALMA DE GRIOT EM PAÍS DESMEMORIADO

Enviado por Irene Santos, fotógrafa

Pedro dos Santos Cunha, Maria José Moreira do Nascimento, Neusa Pereira, Nilo Feijó, Jayme Moreira da Silva,
Silvio Aquino, Giba Giba, Zélia Soares de Lima, Osvaldo Ferreira dos Reis são alguns dos nossos Griots

Na África, griots existiram desde sempre. Fáceis de reconhecer, há milênios são os narradores da memória de seus povos, utilizam a música, a narrativa em praça pública, as histórias sussuradas a platéias de crianças em torno de fogueiras. Transmissores da tradição oral, responsáveis pela preservação da memória coletiva.
No século XVI, quando arrastados à força para o Brasil colonial, os africanos traziam a desesperada necessidade de preservação das suas identidades violentadas. Povos sem escrita, tinham de recompor sua memória incessantemente através da oralidade. Para piorar, a classe dominante escravista já descobrira que a melhor maneira de dominá-los seria apagar suas memórias.(1)
Estava lançada a guerra feroz e desigual e que persiste até hoje. Anastácia, que viveu escravizada na Bahia, no século XVII, teria sido a primeira griot sacrificada por seus ideais . Aos seus irmãos negros, também escravizados, falava sempre, estimulando-os a lutar contra a humilhação e a injustiça. Deve ter sido uma oradora brilhante pois seu discurso incomodou tanto seus algozes que a decidiram calar à força. Colocaram-lhe uma mordaça de folha-de-flandres e uma coleira de ferro, tão pesada, que dificultava, até, seus movimentos. Não adiantou. Anastácia continuou a transmitir sua revolta e a exortar à luta pela liberdade e pela dignidade, através da força do seu olhar.

A memória coletiva, a história extra-oficial transmitida pelos griots negros brasileiros sempre incomodou a sociedade racista e dominadora. Nos dias de hoje a função dos griots ganha importância crucial na luta contra a manipulação da tradição e da cultura negra.

São várias as ferramentas de desconstrução cultural que a sociedade dominante tem à sua disposição. Vão desde a apropriação de traços culturais (vide a "Negaloira Claudia Leite", na Bahia ) até a desqualificação pura e simples, como o hino do RS que declara :
"Povo que não tem virtude, acaba por ser escravo".


Também é desqualificação quando ações afirmativas e de resistência religiosa viram casos de polícia. Ou quando a discriminação e o racismo são punidos com advertências debochadamente leves.
E por aí vai...
Não devemos nos iludir, a tarefa dos griots modernos, em tempos de internet, de comunicação ultra acelerada, vai ficar cada vez mais difícil. A diferença é que agora podem ter acesso às armas dos outros.(2)
Um griot já nasce feito. Senhor do Tempo e do Espaço, relembra coisas que não viveu e tem o dom de transmitir essas memórias com todos os detalhes a quem o escuta. Ele pode transmitir sua sabedoria numa boa conversa, ou no toque de um sopapo. Ele pode aparecer travestido de ator ambulante (3), pode ser um rapper ou um DJ. São inúmeros os avatares que pode assumir para seguir sua vocação.
Por isso, se você desconfiar que tem em casa um desses seres iluminados por memórias ancestrais, cuide bem dele, deixe-o fazer o que sabe fazer melhor e escute, escute...muito.
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