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quinta-feira, 24 de julho de 2014

ADEUS A UM GRIOT

Irene Santos, fotógrafa
Pedro Cunha - foto Irene Santos

Hoje ficamos menores.Com menos memória.
Seu Pedro Cunha se foi,
 levando embora o seu discurso afiado que nos instigava
  a lembrar de nossas origens e do nosso orgulho ancestral.


Seu Pedro  Cunha não se incomodava em afirmar sua ira santa contra a
nossa falta de memória. Contra a falta de solidariedade entre os iguais.
Seu Pedro Cunha não se deixava enganar.

Já nos anos 60, era veemente no protesto  

contra toda a  teoria que tentasse colocar os negros  no seu lugar.

Com a autoridade de  Griot, declarava destemido:

" Antes, as mulheres negras eram cozinheiras e ensinavam, hoje são as madames que ensinam a cozinhar"

 "O negro acredita em tudo o que dizem, até que ele é racista." 

" Não existe classe dominante, existem seres submissos que se deixam dominar"


Falou e disse! 
Como só sabem fazer os Griots.


terça-feira, 25 de junho de 2013

AO MESTRE, COM CARINHO

com a colaboração de Osvaldo Ferreira dos Reis




Lembram do clássico filme de 1967, “Ao  mestre com carinho” (To Sir, With Love) ? Da mesma forma que o personagem de Sidney Poitier , o nosso homenageado, desde há muito tempo,  vem lutando pela valorização de nossa história de negros, da nossa autenticidade cultural , nas mais diversas frentes que ocupou e das que ocupa até hoje.

Na figura elegante, no olhar brilhante, ele transmite com  autoridade de griot seu conhecimento sobre as nossas memórias coletivas. As lembranças de infância de sua filha Ana Lúcia desvendam as origens de sua serena militância:


"As relações de amizade com outros negros eram com pessoas da nossa familia e no Satélite Prontidão, por isso a importância de se sentir igual. Era também lá que eu me sentia mais acolhida, era ali que nossas mães se reuniam para  preparar "quitutes" que aprenderam com suas mães, fazeres e conhecimentos que perpassam de geração em geração; histórias, músicas, literatura, artes, tudo era rico e valorizado. Esta tradição de perpetuar histórias através da oralidade era uma das maneiras mais simples de se transmitir o conhecimento  que se possuía. Histórias que passavam por várias gerações e faziam parte da construção da identidade daqueles grupos de mulheres que frequentavam o lugar. Mães, avós, filhas, amigas se juntavam para dialogar e trocar experiências ; isto porque histórias orais valorizam as memórias e recordações dos indivíduos." (1)
Como bom griot que é, apropria-se com facilidade de memórias anteriores a ele mesmo e contando-as de forma bem humorada consegue nos fazer imaginar as cenas mais antigas, como quando conta a origem da Sociedade Prontidão:
Em uma noite de carnaval, quatro ou cinco jovens resolveram fazer uma fantasia e foram em um baile do Satélite na Cidade Baixa. Nem todos tinham dinheiro para pagar o ingresso. Então resolveram fazer uma fila indiana e romperam o salão gritando: “Pron-pron-prontidão! Pron-pron-prontidão!” Há quem pense que era prontidão de alerta, mas na época a gíria para ‘pobre’ era ‘pronto’. Quando alguém não tinha dinheiro dizíamos: “fulano está pronto”.Essa idéia acabou criando corpo, muitas famílias gostaram do gesto dos rapazes. Eles ganharam a festa! E resolveram criar outra sociedade chamada Sociedade Carnavalesca Prontidão, em 1º de março de 1925. Em 1956 essas duas sociedades resolveram se unir.(2)

Assim é Nilo Feijó, presidente da  centenária Associação Satélite-Prontidão, carnavalesco, compositor de marchas e sambas-de-enredo, sambas de exaltação e músicas românticas.
Sua poesia já deve ter reacendido  muitos amores desfeitos:


Magoei, magoei você/Você partiu, chorando/Sem me reclamarAgora quem chora sou eu/Esperando prá você voltar
Quem te chama sou eu, amor/Sou eu, que estava cego/E não vi seu valor/Aquele que a saudade/Com sua dor feriuE hoje sofre, o que você/Sofreu quando partiu.

Se ela voltou não se sabe.Mas sempre que o puxador da escola de samba executa esta música o povo canta junto.

"Essa maravilha/ É de tirar o chapéu/ Festa igual ao meu carnaval/Só uma festa no céu"
Seus versos se tornaram clássicos e defendem  a  difícil permanência do carnaval em Porto Alegre. 


Hoje, 24 de junho, o SOPAPO POÉTICO – Ponto Negro da Poesia na sua quarta edição de 2013 , recebe Nilo Feijó e seu irmão Guaraci Feijó, expoentes da cultura negra local, cujas trajetórias confundem-se com a história do Carnaval porto-alegrense.

NÃO DÁ PRÁ PERDER!

SOPAPO POÉTICO – edição de junho/2013

Convidados: Nilo Feijó e Guaraci Feijó

Quando: terça-feira (25/06), às 19h30min
Onde: AECPARS - Associação das Entidades Carnavalescas de Porto Alegre e do RS, Av. Ipiranga, 311, Bairro Menino Deus
Entrada franca 
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1) Os 110 anos da Associação Satélite Prontidão em uma viagem através da fotografia/ Ana Lúcia Felippe Feijó /Trabalho de conclusão de curso de Pedagogia da Arte/ UFRGS - 2013
2)Entrevista  para Isadora Pisoni em 2010

segunda-feira, 18 de março de 2013

Já nos viram!-2 ou O QUE SE FALA E O QUE SE QUER DIZER

Enviada por: Irene Santos, fotógrafa
Cena de rua . Debret, seculo XIX
Na sexta feira passada, dia 15/3/2013 ,  em sessão    fechada para convidados, foi exibido na Casa de Cultura Mário Quintana,     um documentário (¹) que, segundo  seu diretor/produtor, contaria a história da Liga da Canela Preta (²).Mesmo tendo recebido convite, não tive estômago para ir à estréia.
Mas minha amiga Cris, compareceu ao evento e relatou:
...Ao chegar à Sala, pouquíssimas pessoas e na maioria não negras. Estranhei pois, se fala da Liga, imaginei que estivesse presente pelo menos o pessoal que participa dos torneios que acontecem anualmente, se nao me engano. As únicas negras eram eu, sozinha, e uma moça que estava acompanhando um rapaz não negro.O diretor na abertura da sessão, falou da importância de mostrar os "problemas do negro" e disse que este curta faz parte de uma trilogia que irá "oportunizar aos afrodescendentes se verem" e ainda "passar conhecimento para os afros".
Comentário do comentário:
Pois é, Cris. Mesmo antes de mostrar sua obra, o diretor já derrapou na explicação.
Primeiro:  racismo e discriminação, não são problemas dos negros, são a vergonha de toda a nação, de todos os brasileiros  sejam quais forem suas cores ou etnias. Tão abjeto quanto ser discriminado é discriminar.
Segundo: nenhum de nós, afrobrasileiros, vai se ver naquele filme. Tudo o que queremos é fugir dos estereótipos do negro fujão, humilhado, acorrentado e sem saída.
Terceiro:  o  filme é produzido utilizando a "técnica tão moderna" de copiar e colar usando pesquisas alheias  e imagens colocadas totalmente fora do contexto em que foram originalmente apresentadas. Isso gera a total distorção da informação  que é passada adiante.

Cris ainda observa:
Foi horrível! Pensei no quanto me sentiria culpada se tivesse levado meu filho. Não fiquei revoltada, fiquei irritada com ignorância dos criadores do filme e principalmente pela falta de referências positivas, que hoje são tantas...  
...são muitas incoerências que não valem a pena discutir, enfim, ao final daquele filme que mais parecia um filme de terror, daqueles que te deixam com medo, o tal diretor esperava os convidados para cumprimentar.  Estranhamente quando chegou minha vez ele se virou e nem me olhou; pensei, vou esperar mais alguns minutos e perguntar a algumas pessoas sobre o que acharam do filme, e o que ouço é o seguinte : muito bom, o "cineasta" está de parabéns... 
 Outro comentário do comentário:

Corroborando a sensação da Cris de estar assistindo a um filme de terror , ainda há a declaração do cineasta à imprensa:
"– Depois, vai circular em escolas, entidades sociais e cinematecas.
Esse é o destino dele (o filme)"
De uns tempos para cá, mais precisamente desde 2003, quando se tornou  obrigatório o ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira(³) no ensino fundamental,vem se formando um time de interessados em ajudar  a população negra a revisitar sua história. Na maior parte das vezes o que importa aos produtores é o acesso ao patrocínio e não ao patrimônio (cultural). Os produtos resultantes, criados a toque de caixa e  baseados em pesquisas ultrapassadas  só vêm  reforçar  os mesmos preconceitos e clichês vigentes desde o  século XIX. O filme de terror prossegue ao  serem (os produtos)  distribuidos às toneladas e ofertados às escolas, entidades sociais e até aos desavisados que estiverem passando por perto.

Como no desenho de Debret lá em cima, onde o negro protege da chuva o fidalgo que vai deixar sua  "obra"  sujando a rua, certos produtores culturais quando declaram estar ajudando a divulgar a cultura e/ou a história dos afrobrasileiros, na verdade estão é fazendo xixi no nosso patrimônio cultural.

 SAIBA MAIS:
(¹) -lançamento do filme
(²) - história da Liga da Canela Preta
(³) - lei 10679/3

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O Óbulo de Bará

Senhora recolhendo doações para levar à Casa do Menino Jesus de Praga

Enviada por: Irene Santos, fotógrafa


Tem novidade no Mercado Público. Bem no centro do prédio, um tapume vermelho de um metro de altura contribui para aumentar a sensação do calor de mais de 40º do ambiente. No centro, no chão, quase pronta, uma mandala concebida pelos artistas Leandro Machado e Pelópidas Thebano.

Como um portal para outra dimensão, indica onde devem ser feitas as homenagens e oferendas a Bará que no panteão afro-brasileiro é o guardião dos caminhos, das casas, do trabalho, do comércio, da prosperidade.

Mesmo a obra não estando concluída, o local já recebe as oferendas.

Quem é iniciado sabe que Bará costuma atender aos pedidos em troca de sete moedas. Quem passa pelo local , mesmo sem entender bem do que se trata, não resiste à tentação de fazer um pedido. E joga pelo menos uma moeda. O melhor de tudo é que, por determinação de Mãe Norinha de Oxalá, idealizadora do monumento, todas as moedas coletadas serão doadas à Casa do Menino Jesus de Praga que acolhe crianças portadoras de lesões cerebrais profundas. Tal como o óbulo de São Pedro, recolhido diariamente nas igrejas católicas, a oferenda feita ao Orixá será encaminhada à Caridade.

O projeto original previa a instalação de um cofre para recolher as doações. Mas no local não há sinal nenhum que indique a futura colocação de um.
Então, como vai ser?

Só de turistas, o Mercado recebe mais de 20 mil visitas anuais. Somam-se a esses, milhares de porto alegrenses que ali vão diariamente fazer compras. Imagine-se a pilha de moedas que vai surgir. No meio do caminho, vai ter gente resvalando, pisando nas moedas, talvez até os mais afoitos e/ou necessitados, levando-as para si.

Não tem como não  lembrar da primeira Lei de Murphy: “Se alguma coisa pode dar errado, dará.”  Com passar do tempo a boa intenção do início poderá se desfigurar, minada pelo descaso, pela falta de cuidado , pelo desrespeito ao óbulo de Bará.

Perdem as criancinhas do Menino Jesus!

Bará que nos perdoe...