Enviada por: Irene Santos, fotógrafa
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| Cena de rua . Debret, seculo XIX |
Na sexta feira passada, dia 15/3/2013 , em sessão fechada para
convidados, foi exibido na Casa de Cultura Mário Quintana, um documentário (¹) que, segundo seu
diretor/produtor, contaria a história da Liga da Canela Preta (²).Mesmo tendo
recebido convite, não tive estômago para ir à estréia.
Mas minha amiga Cris,
compareceu ao evento e relatou:
...Ao chegar à Sala, pouquíssimas pessoas e na maioria não negras. Estranhei pois,
se fala da Liga, imaginei que estivesse presente pelo menos o pessoal que participa dos
torneios que acontecem anualmente, se nao me engano. As únicas
negras eram eu, sozinha, e uma moça que estava acompanhando um rapaz não negro.O diretor na abertura da sessão, falou da importância de mostrar os "problemas do negro" e
disse que este curta faz parte de uma trilogia que irá "oportunizar aos afrodescendentes
se verem" e ainda "passar conhecimento para os afros".
Comentário do comentário:
Pois é, Cris. Mesmo antes de mostrar sua obra, o diretor já derrapou na explicação.
Primeiro: racismo e discriminação, não são problemas dos negros, são a vergonha de toda a nação, de todos os brasileiros sejam quais forem suas cores ou etnias. Tão abjeto quanto ser discriminado é discriminar.
Segundo: nenhum de nós, afrobrasileiros, vai se ver naquele filme. Tudo o que queremos é fugir dos estereótipos do negro fujão, humilhado, acorrentado e sem saída.
Terceiro: o filme é produzido utilizando a "técnica tão moderna" de copiar e colar usando pesquisas alheias e imagens colocadas totalmente fora do contexto em que foram originalmente apresentadas. Isso gera a total distorção da informação que é passada adiante.
Cris ainda observa:
Foi horrível! Pensei no quanto me sentiria culpada se tivesse levado meu filho. Não fiquei
revoltada, fiquei irritada com ignorância dos criadores do filme e
principalmente pela falta de referências positivas, que hoje são tantas...
...são
muitas incoerências que não valem a pena discutir, enfim, ao final daquele
filme que mais parecia um filme de terror, daqueles que te deixam com medo, o
tal diretor esperava os convidados para cumprimentar. Estranhamente quando
chegou minha vez ele se virou e nem me olhou; pensei, vou esperar mais alguns
minutos e perguntar a algumas pessoas sobre o que acharam do filme, e o que ouço
é o seguinte : muito bom, o "cineasta" está de parabéns...
Outro comentário do comentário:
Corroborando a sensação da Cris de estar assistindo a um filme de terror , ainda há a declaração do cineasta à imprensa:
"– Depois, vai circular em escolas, entidades sociais e cinematecas.
Esse é o destino dele (o filme)"
De uns tempos para cá, mais precisamente desde 2003, quando se tornou obrigatório o ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira(³) no ensino fundamental,vem se formando um time de interessados em ajudar a população negra a revisitar sua história. Na maior parte das vezes o que importa aos produtores é o acesso ao patrocínio e não ao patrimônio (cultural). Os produtos resultantes, criados a toque de caixa e baseados em pesquisas ultrapassadas só vêm reforçar os mesmos preconceitos e clichês vigentes desde o século XIX. O filme de terror prossegue ao serem (os produtos) distribuidos às toneladas e ofertados às escolas, entidades sociais e até aos desavisados que estiverem passando por perto.
Como no desenho de Debret lá em cima, onde o negro protege da chuva o fidalgo que vai deixar sua "obra" sujando a rua, certos produtores culturais quando declaram estar ajudando a divulgar a cultura e/ou a história dos afrobrasileiros, na verdade estão é fazendo xixi no nosso patrimônio cultural.