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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

PEQUENA AMOSTRA

..."Negros contadores de casos são em geral as únicas fontes referenciais de certas passagens de seus ambientes, polemizando a História. A tradição oral, muito forte, leva-os a repetirem coisas que ouviram dizer, sem que haja uma documentação comprobatória... "Sempre haverá um negro que repassará para outro negro, os hábitos, costumes, valores e estórias  dos seus ambientes mais característicos. É a tradição oral que precisamos registrar." (Maria Helena Vargas da Silveira)(1)

          As palavras da mestra têm a simplicidade das grandes verdades: Nossos ancestrais tinham na oralidade o principal meio de comunicação de todos os saberes.A memória auditiva e a memória visual eram as ferramentas de armazenamento e propagação do conhecimento. A sabedoria ficava associada à memória, à idade: os griots eram anciões que guardavam as referências que identificavam suas comunidades. Respeitados por todos, suas vidas eram devotadas à formação de outros griots que os pudessem substituir na hora certa.


Esta é a idéia que orienta o desenvolvimento do Projeto OUTROS CARNAVAIS.

Usando a plataforma mais atual, busca o resgate da memória do carnaval de rua da cidade, que está gravada na memória dos participantes da festa popular no século 20.





O web documentário estará disponível na web na primavera  de 2014.
Por enquanto uma muito pequena amostra do nosso making off:


       
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(1)Negrada - Maria Helena Vargas da Silveira -1995 - Grupo Editorial Rainha Ginga - Porto Alegre/RS

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

BOA VIAGEM, SEU JAYME !

Jayme Moreira da Silva (foto : Irene Santos)
Sábios nagôs, senhores do tempo  e da memória  já ensinaram que nossa existência ocorre em dois espaços: aquele em que circulamos acordados,  e que em yorubá é chamado ÀIYÉ  e o outro que é o mundo dos encantados, o ÓRUN, que  circunda o nosso "mundo concreto". Nesse plano paralelo, em alguma fatia desse espaço/ tempo que nos envolve,  ainda existe vibrante, a Colônia Africana, superpondo-se transparente às ruas e avenidas do bairro Rio Branco em Porto Alegre.
É povoada por antigos moradores que circulam atarefados,   ansiosos pelo final da tarde, quando após o trabalho diário, podem se dedicar a preparar a próxima festa do Carnaval. Desde o último sábado, dia 25 de janeiro, existe mais um habitante vivendo nesse bairro.
O nosso querido griot JAYME MOREIRA DA SILVA mudou-se de vez para o Órun. 
Ele que costumava contar que "da Primavera às Cinzas, tudo era festa na Colônia Africana".

Vista da Colonia por volta de 1915

Seu Jayme devia ir de vez em quando visitar sua querida Colônia. Dava para perceber quando se conversava com ele... quando seu olhar se iluminava contando sobre a preparação das festas de verão, sobre os bailes no salão Modelo, sobre o carnaval de rua, sobre a Liga da Canela Preta, sobre os jogos no Campo do Pólo, sobre as matinês nos cinemas  Baltimore e Rio Branco . Seu Jayme sempre acentuava que, ao contrário do que costumava alardear a imprensa da época, "a Colônia Africana era um território de gente trabalhadora, honesta, correta e que estudava".
Nascido em 1915, cumpriu sua missão de griot e agora voltou para casa. 
Ensinou cada um de  nós a não  abdicar de  protagonizar a nossa história. E que o bem maior a transmitir às novas gerações é a alegria e o orgulho pela nossa origem africana  e pela cultura desenvolvida e aperfeiçoada em terra brasileira.
Muito obrigada, Seu Jayme, por iluminar com tanta competência o  caminho da busca  às nossas origens! 
E bom Carnaval por aí, Seu Jayme!
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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Salve Adão Alves de Oliveira, para sempre REI LELÉ!

com a colaboração de Jeanice Dias Ramos, jornalista

Adão Oliveira nos anos 1940
O Rio Grande do Sul perdeu uma estrela  da Cultura Popular. Adão Alves de Oliveira – Seu Lelé – partiu na madrugada do dia 17 de julho deixando órfão o mundo do Carnaval de Porto Alegre .
Ainda menino, na década de 30, conheceu o Carnaval de Porto Alegre, que  era realizado em cinemas – como o antigo Capitólio, onde se apresentavam os blocos carnavalescos. Em 1931 assistiu a um concurso do qual participavam, entre tantos outros, Passa Fome, Tesouras, Tigre, Tesourada, Borboleta e Chora na Esquina. Ficou encantado!
Seria na década de 40 que seu Lelé entraria definitivamente para a história do Carnaval. Em uma tarde monótona de fevereiro de 1949, enquanto conversava com amigos numa esquina do Areal da Baronesa teria comentado a intenção de criar um personagem, que deveria ser alguém muito simpático e que conquistasse a todos, principalmente os comerciantes, visto que a intenção, também, era de beber de graça. 



Foi preparada uma fantasia meio improvisada, com uma coroa de papelão. E o grupo saiu pelas ruas. Lelé acabou sendo aclamado o Rei Momo do Carnaval do Areal da Baronesa, um dos mais fortes da cidade. E, mais tarde, o Primeiro Rei Momo Negro de Porto Alegre. (1)



Seu Lelé teve também experiência no futebol de campo, nos times Força e Luz e Nacional. Trabalhou como contínuo em diferentes bancos e na Livraria do Globo. O registro oficial de sua idade marca 88 anos, mas acredita-se que tenha sido registrado já com alguns anos.

No dia do casamento com Dona Eni
 a companheira de toda vida
Ele tinha o porte e a atitude de um rei que a gente sonha que algum dia existiu na nossa Terra Mãe Africa. A fala calma, no olhar o brilho da juventude eterna. Bom contador de histórias, não havia quem não ficasse envolvido por suas narrativas de outros carnavais.
 

A coroa de papelão, pintada de dourado ficou para sempre impressa na memória coletiva do povo do Areal da Baronesa. 
Lelé com seu porte altivo e seu olhar de menino representou uma vitória do carnaval de rua, realmente protagonizado pelos negros no século passado. 
Agora, tal como desse Carnaval autêntico que acontecia por aqui, espaço de afirmação e preservação de nossa Cultura, ficou a imensa saudade do Seu Adão, nosso eterno Rei Lelé.
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1)Matéria do DiarioGaucho publicada em agosto de 2000

terça-feira, 25 de junho de 2013

AO MESTRE, COM CARINHO

com a colaboração de Osvaldo Ferreira dos Reis




Lembram do clássico filme de 1967, “Ao  mestre com carinho” (To Sir, With Love) ? Da mesma forma que o personagem de Sidney Poitier , o nosso homenageado, desde há muito tempo,  vem lutando pela valorização de nossa história de negros, da nossa autenticidade cultural , nas mais diversas frentes que ocupou e das que ocupa até hoje.

Na figura elegante, no olhar brilhante, ele transmite com  autoridade de griot seu conhecimento sobre as nossas memórias coletivas. As lembranças de infância de sua filha Ana Lúcia desvendam as origens de sua serena militância:


"As relações de amizade com outros negros eram com pessoas da nossa familia e no Satélite Prontidão, por isso a importância de se sentir igual. Era também lá que eu me sentia mais acolhida, era ali que nossas mães se reuniam para  preparar "quitutes" que aprenderam com suas mães, fazeres e conhecimentos que perpassam de geração em geração; histórias, músicas, literatura, artes, tudo era rico e valorizado. Esta tradição de perpetuar histórias através da oralidade era uma das maneiras mais simples de se transmitir o conhecimento  que se possuía. Histórias que passavam por várias gerações e faziam parte da construção da identidade daqueles grupos de mulheres que frequentavam o lugar. Mães, avós, filhas, amigas se juntavam para dialogar e trocar experiências ; isto porque histórias orais valorizam as memórias e recordações dos indivíduos." (1)
Como bom griot que é, apropria-se com facilidade de memórias anteriores a ele mesmo e contando-as de forma bem humorada consegue nos fazer imaginar as cenas mais antigas, como quando conta a origem da Sociedade Prontidão:
Em uma noite de carnaval, quatro ou cinco jovens resolveram fazer uma fantasia e foram em um baile do Satélite na Cidade Baixa. Nem todos tinham dinheiro para pagar o ingresso. Então resolveram fazer uma fila indiana e romperam o salão gritando: “Pron-pron-prontidão! Pron-pron-prontidão!” Há quem pense que era prontidão de alerta, mas na época a gíria para ‘pobre’ era ‘pronto’. Quando alguém não tinha dinheiro dizíamos: “fulano está pronto”.Essa idéia acabou criando corpo, muitas famílias gostaram do gesto dos rapazes. Eles ganharam a festa! E resolveram criar outra sociedade chamada Sociedade Carnavalesca Prontidão, em 1º de março de 1925. Em 1956 essas duas sociedades resolveram se unir.(2)

Assim é Nilo Feijó, presidente da  centenária Associação Satélite-Prontidão, carnavalesco, compositor de marchas e sambas-de-enredo, sambas de exaltação e músicas românticas.
Sua poesia já deve ter reacendido  muitos amores desfeitos:


Magoei, magoei você/Você partiu, chorando/Sem me reclamarAgora quem chora sou eu/Esperando prá você voltar
Quem te chama sou eu, amor/Sou eu, que estava cego/E não vi seu valor/Aquele que a saudade/Com sua dor feriuE hoje sofre, o que você/Sofreu quando partiu.

Se ela voltou não se sabe.Mas sempre que o puxador da escola de samba executa esta música o povo canta junto.

"Essa maravilha/ É de tirar o chapéu/ Festa igual ao meu carnaval/Só uma festa no céu"
Seus versos se tornaram clássicos e defendem  a  difícil permanência do carnaval em Porto Alegre. 


Hoje, 24 de junho, o SOPAPO POÉTICO – Ponto Negro da Poesia na sua quarta edição de 2013 , recebe Nilo Feijó e seu irmão Guaraci Feijó, expoentes da cultura negra local, cujas trajetórias confundem-se com a história do Carnaval porto-alegrense.

NÃO DÁ PRÁ PERDER!

SOPAPO POÉTICO – edição de junho/2013

Convidados: Nilo Feijó e Guaraci Feijó

Quando: terça-feira (25/06), às 19h30min
Onde: AECPARS - Associação das Entidades Carnavalescas de Porto Alegre e do RS, Av. Ipiranga, 311, Bairro Menino Deus
Entrada franca 
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1) Os 110 anos da Associação Satélite Prontidão em uma viagem através da fotografia/ Ana Lúcia Felippe Feijó /Trabalho de conclusão de curso de Pedagogia da Arte/ UFRGS - 2013
2)Entrevista  para Isadora Pisoni em 2010

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Memória Coletiva

Ben Hur, Quinzinho, Vando, Setembrino. Acervo João Décio R dos Santos

Enviada por: Irene Santos, fotógrafa  

Areal da Baronesa legitimo “território negro “ de Porto Alegre, é a antiga denominação de parte da atual Cidade Baixa. Até hoje o Areal  de antigamente é lembrado  pelas muitas casas de religião, por seus músicos talentosos, pelo animado carnaval de rua na primeira metade do século 20, pelos bares e salões de festas.
Osvaldo Reis, (no livro Colonos & Quilombolas) explica:“Nessa região ficava o Salão do Tareco, primeiro a promover bailes populares para a comunidade...Nas imediações da Praça Garibaldi ficava a sede da Sociedade Nós Os Democratas, que teve forte ação carnavalesca.

No Areal da Baronesa existiu também o Bar da Doca, localizado na Barão do Gravataí. O samba iniciava na sexta-feira às 9 da noite e se estendia até a madrugada da segunda feira. Músicos de indiscutível talento como Paulo Santos, Cauby do Violão,Gogó do Cavaquinho, Bichinho da Seda, Wilson Sarará, Marino do Pandeiro e muitos outros percussionistas e cantores confraternizavam e mostravam suas composições no Bar da Doca.”

O frequentador que cansava, ainda podia dar uma bicada no sopão da casa permanentemente renovado ou uma cochilada em algum cantinho , embalado pelo samba.
Silvinho Aquino, eficiente griot  lembra : “O Carnaval passava aqui na frente. A gente era criança e saia para ver os coretos na Barão(do Gravataí), Baronesa(do Gravataí), Miguel Teixeira, Rua da Margem .... Era bom, a gente sentava na frente de casa, com a porta aberta para ver passarem os blocos . A gente tinha um conhecido, um negro alto e forte, Rui Massa Bruta, que nos três dias de carnaval se vestia de baiana, uma fantasia sensacional e na parte da cabeça ele cada dia fazia com um tipo de fruta.”

Heitor Carlos Garcia (no livro Fragmentos Históricos do Carnaval de Porto Alegre) observa: “A primeira impressão que se tem ao passar pelo Areal da Baronesa é a carga energeticamente positiva contida naquelas ruas... um local que está impregnado com o espírito de toda aquela gente carnavalesca que ali viveu, do surgimento de vários e vários grupos e blocos e dos muitos coretos que o “progresso” derrubou mas não matou.”                   

É bem assim. Quem  passa hoje no Areal ainda sente a energia que  o torna um lugar especial na cidade. A música de outros tempos, de outras memórias ainda parece que paira no ar. E que de vez em quando se materializa em eventos como o Samba e Sarau no Areal que vai rolar nesta antevéspera do carnaval, dia 7 de fevereiro, no Boteko do Caninha (Barão do Gravataí esquina Múcio Teixeira) a partir das 20h.  Os organizadores convidam: A entrada é franca, a participação é livre. O microfone estará aberto. Venha e traga seu poema, seu instrumento, sua composição, sua voz...
Toda a semelhança com os velhos tempos não é coincidência é DNA.
*Fotos dos Acervos de João Décio R dos Santos, Vera Daisy Barcellos, Osvaldo Reis

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Carnaval Eterno

 D.Maria de Lourdes, ao centro, rainha do carnaval da Floresta Aurora

 Enviada por: Irene Santos, fotógrafa

D. Maria de Lourdes Martins tinha perto de 90 anos quando falou sobre sua participação nos distantes carnavais de rua dos anos 1930. Ela foi rainha do carnaval da Sociedade Floresta Aurora e contou:
__ “A gente era escolhida ( rainha do carnaval) por uma comissão da Sociedade. Faziam uma reunião e escolhiam uma moça. Depois a gente fazia a roupa para o baile. Papai concordou, desde que não tivesse  luxo. Dizia: Tá vestida? Tá bem vestida? Pronto. Não precisa luxo”
__”Na época,existiam “ os corsos”; era coisa muito bonita, sim senhora. Que vou lhe dizer uma coisa...eu fui rainha da Floresta ...então  arranjavam um carro  com  capota. Baixavam  aquela capota e a vestiam  muito bem vestida, toda enfeitada com flores, serpentinas. E a gente sentava ali... e faziam a volta na cidade... Menina, quando a gente chegava na frente da prefeitura a banda da Brigada Militar  estava nos esperando. “

__“Tão bonito , a banda da Brigada tocando... O nosso carro e mais outros seguiam com a banda, davam a volta na praça da Alfândega seguiam pela Rua da Praia e saiam na Borges. O corso seguia e a banda voltava para a frente da prefeitura.”

D. Maria seguiu contando como aconteciam os desfiles dos blocos: todos partiam da esquina da  Salgado Filho com a Borges de Medeiros , desciam em direção à Rua da Praia e seguiam por ela até a Praça da Alfândega. Dali em diante os blocos iam  para os bairros desfilar junto aos  coretos.

Nilo Ruschel no seu livro Rua da Praia aponta um aspecto quase ignorado dos desfiles
nos anos 1930:
“Uma pitoresca(?) distinção ficou assinalada nêsse período, durante o carnaval da
Rua da Praia
,
marcando o preconceito de côr . Havia o "lado dos brancos" e o "lado dos pretos", sendo que êstes se colocavam à esquerda e aquêles à direita da rua, no sentido de quem desce na direção da praça da Alfândega”
 
Baile de carnaval da Sociedade Esmeralda no inicio dos anos 1930 . Revista do Globo

Na mesma época, parte da população da cidade preferia fugir da rua superlotada para brincar o carnaval dentro dos salões de baile como os "animados" foliões da Sociedade  Esmeralda.

Parece que o preconceito e a repulsa à festa popular é  característica de Porto Alegre há muito tempo. Ao contrário do que acontece nas outras capitais do país, aqui não existe mais carnaval de rua e nem desfiles dentro da cidade. E agora, pegando carona no sentimento de tristeza  nacional do momento, os anti-carnavalescos de plantão já mostram suas garrinhas nas redes sociais.
Carlos Eugenio em sua página no facebook, contrapõe aos mal-humorados oportunistas a sua equilibrada "Campanha Carnaval Eterno".
Ele está certo!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Velhos Carnavais: Solução de última hora

 

Xavantes em 1953
 No tempo em que  existia carnaval de rua em Porto Alegre, um dos pontos altos dos desfiles era a apresentação das Tribos Carnavalescas. Segundo Heitor Carlos S B Garcia, em seu livro Fragmentos Histórios do Carnaval , as tribos surgiram por volta de 1945 e tiveram seu apogeu nos anos 1960 quando a beleza de suas fantasias e apresentações atraiam muitos turistas à cidade.

Hemetério de Barros em seu livro Memórias de um Carnavalesco, relembrou o que aconteceu  em uma participação dos Xavantes  no carnaval de 1953

"...Enquanto isso, nós os Xavantinos, que já tínhamos mais de três meses de ensaios, estávamos tinindo para a nossa primeira apresentação. No nosso tema, tínhamos uma linda moça, parente do valoroso Cacique Aguia Branca, o Julio Garcia, o "Niquelate". Essa índia tinha um papel chave no tema.

 
Chegou o grande e esperado momento da apresentação perante a torcida e a comissão julgadora. Tudo estava em ordem, os guerreiros todos preparados para a decisão final. Estávamos seguros de que não perderíamos o campeonato.

O coreto oficial estava localizado na Praça da Alfândega, esquina com o Largo dos Medeiros (atual rua General Câmara), mas antes, nos dirigimos ao carnaval da rua Demétrio Ribeiro, onde faríamos a primeira apresentação pública do nosso tema.

Quando assim procediamos, a nossa índia, que tinha um papel chave, com um diálogo importante com o Pajé, emudeceu completamente, num nervosismo por nós nunca visto
e que nem podíamos esperar, tendo em vista que tudo estava certo nos ensaios. Procuramos acalmá-Ia mas sentimos a impossibilidade da apresentação, tal o nervosismo da menina.

 O acontecimento nos perturbou muito, mas não perdi a calma, procurando algo para substituir essa apresentação. Quando caminhávamos para o coreto oficial, fiquei observando uma dupla inédita, que vinha dando um show à parte dentro da Tribo; era o índio Camburupi - o Paulo Fontes - e um índio fàntasiado de gorila que, amarrado pela cintura, obedecia o Carnburupí, o seu domador, que o ameaçava com uma machadinha.

 Sentimos nessa dupla, tão bem caracterizada, a solução do imprevisto problema que se criou. Chamei os dois à parte e combinei o que deveríamos fazer, mesmo sem ensaio.

Durante a apresentação, o guerreiro domador fazia o gorila dançar sob a ameaça da machadinha mas, de repente, por um descuido, levou uma chapoletada na cabeça, do gorila enfurecido. O índio domador caiu de todo o comprimento desmaiado. Logo, quatro guerreiros da guarda do Pajé, armados de lanças procuraram conter a fúria do gorila, mas o fizeram tão desastrosamente, que feriram de verdade o rapaz fantasiado de gorila, no peito, ficando o mesmo tão enfurecido, que começou a distribuir socos e ponta-pés. A cena ficou por demais autêntica e mereceu aplausos vibrantes da Comissão Julgadora e da grande torcida dos Xavantes. O Pajé, com suas feitiçarias, recobrou os sentidos do domador desfalecido.
A nossa apresentação foi perfeita."