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terça-feira, 25 de junho de 2013

AO MESTRE, COM CARINHO

com a colaboração de Osvaldo Ferreira dos Reis




Lembram do clássico filme de 1967, “Ao  mestre com carinho” (To Sir, With Love) ? Da mesma forma que o personagem de Sidney Poitier , o nosso homenageado, desde há muito tempo,  vem lutando pela valorização de nossa história de negros, da nossa autenticidade cultural , nas mais diversas frentes que ocupou e das que ocupa até hoje.

Na figura elegante, no olhar brilhante, ele transmite com  autoridade de griot seu conhecimento sobre as nossas memórias coletivas. As lembranças de infância de sua filha Ana Lúcia desvendam as origens de sua serena militância:


"As relações de amizade com outros negros eram com pessoas da nossa familia e no Satélite Prontidão, por isso a importância de se sentir igual. Era também lá que eu me sentia mais acolhida, era ali que nossas mães se reuniam para  preparar "quitutes" que aprenderam com suas mães, fazeres e conhecimentos que perpassam de geração em geração; histórias, músicas, literatura, artes, tudo era rico e valorizado. Esta tradição de perpetuar histórias através da oralidade era uma das maneiras mais simples de se transmitir o conhecimento  que se possuía. Histórias que passavam por várias gerações e faziam parte da construção da identidade daqueles grupos de mulheres que frequentavam o lugar. Mães, avós, filhas, amigas se juntavam para dialogar e trocar experiências ; isto porque histórias orais valorizam as memórias e recordações dos indivíduos." (1)
Como bom griot que é, apropria-se com facilidade de memórias anteriores a ele mesmo e contando-as de forma bem humorada consegue nos fazer imaginar as cenas mais antigas, como quando conta a origem da Sociedade Prontidão:
Em uma noite de carnaval, quatro ou cinco jovens resolveram fazer uma fantasia e foram em um baile do Satélite na Cidade Baixa. Nem todos tinham dinheiro para pagar o ingresso. Então resolveram fazer uma fila indiana e romperam o salão gritando: “Pron-pron-prontidão! Pron-pron-prontidão!” Há quem pense que era prontidão de alerta, mas na época a gíria para ‘pobre’ era ‘pronto’. Quando alguém não tinha dinheiro dizíamos: “fulano está pronto”.Essa idéia acabou criando corpo, muitas famílias gostaram do gesto dos rapazes. Eles ganharam a festa! E resolveram criar outra sociedade chamada Sociedade Carnavalesca Prontidão, em 1º de março de 1925. Em 1956 essas duas sociedades resolveram se unir.(2)

Assim é Nilo Feijó, presidente da  centenária Associação Satélite-Prontidão, carnavalesco, compositor de marchas e sambas-de-enredo, sambas de exaltação e músicas românticas.
Sua poesia já deve ter reacendido  muitos amores desfeitos:


Magoei, magoei você/Você partiu, chorando/Sem me reclamarAgora quem chora sou eu/Esperando prá você voltar
Quem te chama sou eu, amor/Sou eu, que estava cego/E não vi seu valor/Aquele que a saudade/Com sua dor feriuE hoje sofre, o que você/Sofreu quando partiu.

Se ela voltou não se sabe.Mas sempre que o puxador da escola de samba executa esta música o povo canta junto.

"Essa maravilha/ É de tirar o chapéu/ Festa igual ao meu carnaval/Só uma festa no céu"
Seus versos se tornaram clássicos e defendem  a  difícil permanência do carnaval em Porto Alegre. 


Hoje, 24 de junho, o SOPAPO POÉTICO – Ponto Negro da Poesia na sua quarta edição de 2013 , recebe Nilo Feijó e seu irmão Guaraci Feijó, expoentes da cultura negra local, cujas trajetórias confundem-se com a história do Carnaval porto-alegrense.

NÃO DÁ PRÁ PERDER!

SOPAPO POÉTICO – edição de junho/2013

Convidados: Nilo Feijó e Guaraci Feijó

Quando: terça-feira (25/06), às 19h30min
Onde: AECPARS - Associação das Entidades Carnavalescas de Porto Alegre e do RS, Av. Ipiranga, 311, Bairro Menino Deus
Entrada franca 
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1) Os 110 anos da Associação Satélite Prontidão em uma viagem através da fotografia/ Ana Lúcia Felippe Feijó /Trabalho de conclusão de curso de Pedagogia da Arte/ UFRGS - 2013
2)Entrevista  para Isadora Pisoni em 2010

segunda-feira, 8 de abril de 2013

ALMA DE GRIOT EM PAÍS DESMEMORIADO

Enviado por Irene Santos, fotógrafa

Pedro dos Santos Cunha, Maria José Moreira do Nascimento, Neusa Pereira, Nilo Feijó, Jayme Moreira da Silva,
Silvio Aquino, Giba Giba, Zélia Soares de Lima, Osvaldo Ferreira dos Reis são alguns dos nossos Griots

Na África, griots existiram desde sempre. Fáceis de reconhecer, há milênios são os narradores da memória de seus povos, utilizam a música, a narrativa em praça pública, as histórias sussuradas a platéias de crianças em torno de fogueiras. Transmissores da tradição oral, responsáveis pela preservação da memória coletiva.
No século XVI, quando arrastados à força para o Brasil colonial, os africanos traziam a desesperada necessidade de preservação das suas identidades violentadas. Povos sem escrita, tinham de recompor sua memória incessantemente através da oralidade. Para piorar, a classe dominante escravista já descobrira que a melhor maneira de dominá-los seria apagar suas memórias.(1)
Estava lançada a guerra feroz e desigual e que persiste até hoje. Anastácia, que viveu escravizada na Bahia, no século XVII, teria sido a primeira griot sacrificada por seus ideais . Aos seus irmãos negros, também escravizados, falava sempre, estimulando-os a lutar contra a humilhação e a injustiça. Deve ter sido uma oradora brilhante pois seu discurso incomodou tanto seus algozes que a decidiram calar à força. Colocaram-lhe uma mordaça de folha-de-flandres e uma coleira de ferro, tão pesada, que dificultava, até, seus movimentos. Não adiantou. Anastácia continuou a transmitir sua revolta e a exortar à luta pela liberdade e pela dignidade, através da força do seu olhar.

A memória coletiva, a história extra-oficial transmitida pelos griots negros brasileiros sempre incomodou a sociedade racista e dominadora. Nos dias de hoje a função dos griots ganha importância crucial na luta contra a manipulação da tradição e da cultura negra.

São várias as ferramentas de desconstrução cultural que a sociedade dominante tem à sua disposição. Vão desde a apropriação de traços culturais (vide a "Negaloira Claudia Leite", na Bahia ) até a desqualificação pura e simples, como o hino do RS que declara :
"Povo que não tem virtude, acaba por ser escravo".


Também é desqualificação quando ações afirmativas e de resistência religiosa viram casos de polícia. Ou quando a discriminação e o racismo são punidos com advertências debochadamente leves.
E por aí vai...
Não devemos nos iludir, a tarefa dos griots modernos, em tempos de internet, de comunicação ultra acelerada, vai ficar cada vez mais difícil. A diferença é que agora podem ter acesso às armas dos outros.(2)
Um griot já nasce feito. Senhor do Tempo e do Espaço, relembra coisas que não viveu e tem o dom de transmitir essas memórias com todos os detalhes a quem o escuta. Ele pode transmitir sua sabedoria numa boa conversa, ou no toque de um sopapo. Ele pode aparecer travestido de ator ambulante (3), pode ser um rapper ou um DJ. São inúmeros os avatares que pode assumir para seguir sua vocação.
Por isso, se você desconfiar que tem em casa um desses seres iluminados por memórias ancestrais, cuide bem dele, deixe-o fazer o que sabe fazer melhor e escute, escute...muito.
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