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domingo, 11 de maio de 2014

AS MÃES DA COLÔNIA AFRICANA


Texto de Jayme Moreira da Silva(1)

Mãe Preta (2)
"As Mães da Colônia Africana (2) eram conhecidas como amas de leite. Diariamente saiam cedo de casa, deixando seus filhos aos cuidados de vizinhos ou parentes, para irem às casas de famílias ricas onde amamentavam os filhos destas e recebiam uma remuneração por isso, para sustentar as despesas de casa.Os filhos das amas de leite permaneciam em casa e eram alimentados com os costumes africanos: leite com derivados de farinha de milho. Aos tres meses de idade, tomavam sopinhas de caldo de carne e feijão preto. As mães que tinham saído cedo para cuidar de crianças alheias, eram esperadas no final do dia com canjica de milho, mingau da mesma farinha e o tradicional feijão com arroz, verduras, legumes, carne sêca, linguiça.



Destas amas de leite, eu conheci algumas. Uma era minha tia Matilde que tinha duas filhas. Outra era mãe de meus amigos de infância , João Rosa e João Dez ( este apelido ele recebeu no exército, serviço obrigatório na época).


Monumento à Mãe Preta - Recife/PE




Era lindo ver a garbosa e bela Matilde subir a rua Felipe Camarão na direção da avenida Independência, onde trabalhava em casa de familia de origem alemã, muito rica. Matilde ainda cuidava do chefe da familia, gerente de uma grande firma do comercio local, homem de muito estudo e ...alcoólatra.
Minha tia, ao chegar de manhã, tratava a ressaca do patrão  com forte alimentação de líquidos, papinhas e ovos quentes.
Depois, ia tratar de amamentar os bebês;e então, ia tratar da dona da casa, mulher de pouca saúde, muito fraca.


Minha tia Matilde, era um anjo de paciência e brandura, um grande coração. Índole comum às mães pretas: desde sempre trataram com carinho e muito amor, tanto seus filhos como os filhos de outras mães. Em sua simplicidade sabiam que o leite da amamentação era uma doação de amor e era esse amor que o fazia nutritivo. E tirar o leite dos próprios filhos e oferecer com amor para estranhos é, sim, ter muita cristandade no coração."
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(2)  Mãe preta, 1912. Lucílio de Albuquerque (Brasil, 1877 – 1939). Óleo sobre tela, 180 x 130 cm



quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

BOA VIAGEM, SEU JAYME !

Jayme Moreira da Silva (foto : Irene Santos)
Sábios nagôs, senhores do tempo  e da memória  já ensinaram que nossa existência ocorre em dois espaços: aquele em que circulamos acordados,  e que em yorubá é chamado ÀIYÉ  e o outro que é o mundo dos encantados, o ÓRUN, que  circunda o nosso "mundo concreto". Nesse plano paralelo, em alguma fatia desse espaço/ tempo que nos envolve,  ainda existe vibrante, a Colônia Africana, superpondo-se transparente às ruas e avenidas do bairro Rio Branco em Porto Alegre.
É povoada por antigos moradores que circulam atarefados,   ansiosos pelo final da tarde, quando após o trabalho diário, podem se dedicar a preparar a próxima festa do Carnaval. Desde o último sábado, dia 25 de janeiro, existe mais um habitante vivendo nesse bairro.
O nosso querido griot JAYME MOREIRA DA SILVA mudou-se de vez para o Órun. 
Ele que costumava contar que "da Primavera às Cinzas, tudo era festa na Colônia Africana".

Vista da Colonia por volta de 1915

Seu Jayme devia ir de vez em quando visitar sua querida Colônia. Dava para perceber quando se conversava com ele... quando seu olhar se iluminava contando sobre a preparação das festas de verão, sobre os bailes no salão Modelo, sobre o carnaval de rua, sobre a Liga da Canela Preta, sobre os jogos no Campo do Pólo, sobre as matinês nos cinemas  Baltimore e Rio Branco Seu Jayme sempre acentuava que, ao contrário do que costumava alardear a imprensa da época, "a Colônia Africana era um território de gente trabalhadora, honesta, correta e que estudava".
Nascido em 1915, cumpriu sua missão de griot e agora voltou para casa
Ensinou cada um de  nós a não  abdicar de  protagonizar a nossa história. E que o bem maior a transmitir às novas gerações é a alegria e o orgulho pela nossa origem africana  e pela cultura desenvolvida e aperfeiçoada em terra brasileira.
Muito obrigada, Seu Jayme, por iluminar com tanta competência o  caminho da busca  às nossas origens! 
E bom Carnaval por aí, Seu Jayme!
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terça-feira, 17 de setembro de 2013

DE SETEMBRO ATÉ A QUARESMA...



Jayme Moreira da Silva, foi morador da Colônia Africana
Nada de bandidagem ou malandragem, a Colônia Africana era um território de gente trabalhadora, honesta, correta e que estudava. mais do que isto, era um lugar onde predominava a alegria, a amizade e não havia espaço para brigas .(1)
Jayme Moreira da Silva, 95 , lembra bem dos velhos tempos na Colônia Africana. Seu olhar se ilumina quando recorda :
 
"De setembro até a quaresma, tudo era festa na Colônia Africana..."
As festas iniciavam nos dias seis, sete e oito de setembro. Todos os anos os bailes ocorriam no salão Modelo  no centro da colônia (na esquina da Casemiro de Abreu com a rua  Miguel Tostes, que naquele tempo era chamada Rua da Esperança). O primeiro baile era da Sociedade 8 de Setembro  no dia 6, véspera do feriado da Independência. Os bailes eram animados por conjuntos, orquestras e bandas e, bem organizados,  iniciavam às 23h indo até de manhã.

Orquestra Tangarás em baile na Colônia Africana, ao tempo em que o cantor Onofre
soltava a voz usando um megafone. Acervo Maria José M do Nascimento.

Jazz Império se apresentando no salão Modelo. Acervo Helena Vieira.
"Os comes e  bebes eram servidos pela madrugada, após a escolha da Rainha da Sociedade 8 de Setembro do próximo ano. Bebidas e aperitivos vinham de Santo Antonio da Patrulha , as cervejas das cervejarias Sassem e Ritter, os doces da Confeitaria Rocco... uma delícia".(2)


Baile do Sorriso, na Colônia Africana. Acervo Cezar Dias    


"Nos anos 1930 e 40,  faziam-se bailes que começavam no sábado, prolongavam-se no domingo e iam até segunda. Na segunda era a soirée, festa iniciando às 20h  e finalizando à meia noite.
Também havia as matinês nas tardes de sábado.Vinham artistas do Brasil todo.
Horacina Correa vinha, veio Dalva (de Oliveira) e Herivelto (Martins), Grande Otelo. Esse adorava dançar e dançou com minha irmã. Ela bem alta, ele bem baixinho"
, conta dona Zélia Lima, 93."As festas na Colônia Africana eram assim: quando vinha um cantor de São Paulo, saia todo mundo pra rua. Levavam cadeiras para a rua, todo mundo se arrumava cedo para ir esperar o cantor chegar ao salão Modelo e "dar uma canja" na sacada do clube."




A decoração do salão era feita com papel crepom e papel de seda. As moças faziam osdesenhos e depois recortavam no papel e os rapazes dependuravam no teto e nas paredes. Ficava lindo, lembra dona Zélia Lima.
    Acervo Osvaldo Reis


Havia muito capricho por parte dos jovens que frequentavam as festas e os bailes.Os trajes eram de gala, vestidos compridos ou quando era soirée , o baile começava às 8h e terminava à meia noite, aí o vestido era meia perna. 
                                                                                                      
Nas  tardes de domingo aconteciam os  chás dançantes. Nestes, eram as mães que faziam e serviam o chá. Elas que tomavam conta da cozinha.

Alípio Dias  arrendava o salão Modelo  nos anos 1940. Seu filho Adair, 85, passou parte da adolescência ajudando o pai na produção das festas no salão:

 "Organizava a lista e entregava os convites. Usava uma grade feita numa folha de caderno onde estavam nomes e endereços dos sócios. Depois eu e meus irmãos íamos entregar os convites."

Dona Zélia, já casada, acompanhava as meninas
da sua  família aos bailes. Acervo Zelia S Lima








"As regras para os frequentadores dos bailes eram bem severas. Havia os fiscais de salão, pessoas que controlavam as boas maneiras dos participantes  impedindo que "dançassem incorretamente".
Quando acontecia alguma coisa, o fiscal chamava o casal de lado e advertia: Olha, esta dança aí está feia". Quando estavam muito colados , diziam que  estavam "maxixando" .Não podiam.


Nos bailes e festas só eram convidadas as moças das familias de associados e que não fossem brancas. Os homens tinham de ter a "ficha limpa", não só na polícia mas em tudo. " Porque um pode ter a ficha limpa na policia e suja lá não sei aonde". Dificilmente entravam pessoas brancas, dava até briga na porta", recorda Seu Adair


Antes que algum leitor desavisado estranhe o fato de as festas e bailes  serem privativos dos negros da Colônia, classificando o fato como "racismo ao contrário", é bom lembrar que isto ocorria numa época em que o preconceito era praticamente uma ideologia que tornava a discriminação uma prática "natural" na sociedade porto-alegrense. Ou alguém imagina que negros seriam aceitos para participar de bailes em sociedades como G N UNIÃO, ou Petrópolis TC, ou Clube do Comércio ou até mesmo Clube Gondoleiros? 


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1)Livro "Colonos e quilombolas, memória das colônias africanas de Porto Alegre" - Irene Santos,org -2010- edição independente.
2) Livro "Colônia Africana" de Jayme Moreira da Silva - 2005 - Edição independente.


segunda-feira, 8 de abril de 2013

ALMA DE GRIOT EM PAÍS DESMEMORIADO

Enviado por Irene Santos, fotógrafa

Pedro dos Santos Cunha, Maria José Moreira do Nascimento, Neusa Pereira, Nilo Feijó, Jayme Moreira da Silva,
Silvio Aquino, Giba Giba, Zélia Soares de Lima, Osvaldo Ferreira dos Reis são alguns dos nossos Griots

Na África, griots existiram desde sempre. Fáceis de reconhecer, há milênios são os narradores da memória de seus povos, utilizam a música, a narrativa em praça pública, as histórias sussuradas a platéias de crianças em torno de fogueiras. Transmissores da tradição oral, responsáveis pela preservação da memória coletiva.
No século XVI, quando arrastados à força para o Brasil colonial, os africanos traziam a desesperada necessidade de preservação das suas identidades violentadas. Povos sem escrita, tinham de recompor sua memória incessantemente através da oralidade. Para piorar, a classe dominante escravista já descobrira que a melhor maneira de dominá-los seria apagar suas memórias.(1)
Estava lançada a guerra feroz e desigual e que persiste até hoje. Anastácia, que viveu escravizada na Bahia, no século XVII, teria sido a primeira griot sacrificada por seus ideais . Aos seus irmãos negros, também escravizados, falava sempre, estimulando-os a lutar contra a humilhação e a injustiça. Deve ter sido uma oradora brilhante pois seu discurso incomodou tanto seus algozes que a decidiram calar à força. Colocaram-lhe uma mordaça de folha-de-flandres e uma coleira de ferro, tão pesada, que dificultava, até, seus movimentos. Não adiantou. Anastácia continuou a transmitir sua revolta e a exortar à luta pela liberdade e pela dignidade, através da força do seu olhar.

A memória coletiva, a história extra-oficial transmitida pelos griots negros brasileiros sempre incomodou a sociedade racista e dominadora. Nos dias de hoje a função dos griots ganha importância crucial na luta contra a manipulação da tradição e da cultura negra.

São várias as ferramentas de desconstrução cultural que a sociedade dominante tem à sua disposição. Vão desde a apropriação de traços culturais (vide a "Negaloira Claudia Leite", na Bahia ) até a desqualificação pura e simples, como o hino do RS que declara :
"Povo que não tem virtude, acaba por ser escravo".


Também é desqualificação quando ações afirmativas e de resistência religiosa viram casos de polícia. Ou quando a discriminação e o racismo são punidos com advertências debochadamente leves.
E por aí vai...
Não devemos nos iludir, a tarefa dos griots modernos, em tempos de internet, de comunicação ultra acelerada, vai ficar cada vez mais difícil. A diferença é que agora podem ter acesso às armas dos outros.(2)
Um griot já nasce feito. Senhor do Tempo e do Espaço, relembra coisas que não viveu e tem o dom de transmitir essas memórias com todos os detalhes a quem o escuta. Ele pode transmitir sua sabedoria numa boa conversa, ou no toque de um sopapo. Ele pode aparecer travestido de ator ambulante (3), pode ser um rapper ou um DJ. São inúmeros os avatares que pode assumir para seguir sua vocação.
Por isso, se você desconfiar que tem em casa um desses seres iluminados por memórias ancestrais, cuide bem dele, deixe-o fazer o que sabe fazer melhor e escute, escute...muito.
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